Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 59
na música de Bowie, o que não foi e o que
pode vir ainda a ser. E o cinema os presen-
teia com isso.
Tudo em poucas horas, tudo em um
filme, destroem sua visibilidade para ence-
narem uma invisibilidade que os dê outra
forma de serem visíveis, que é beleza nunca
consentida a eles.
E eles o podem ser. Tudo por um dia.
E por fim, nos deparamos com esse objeto
estranho, até na própria carreira, de Richard
Linklater chamado Jovens Loucos e Rebeldes,
que condensa a três questões discorridas aqui
em apenas um filme.
Possui toda a maquiagem dos anos 70,
possui a atmosfera da época recente, do fi-
nal dos anos 80, esse tempo tão fundamental
para o gênero, e associa para potencializar os
dois anteriores, os garotos e as garotas dos
anos 90, integradas a um estilo de vida e la-
zer que pode ser definido pelo nome de seu
filme anterior: Slacker (1991).
Mas isso o faz o melhor filme do gênero?
O melhor filme que confronta a adolescência?
Não, nem um pouco. Nem raspa.
Isso torna o filme muito interessante por
um sentimento de amálgama, de transitar
tanto em tão pouco, de maneira tão despre-
tensiosa. O seu acerto é não tornar as três di-
mensões em uma fórmula. Seu valor é como
de um óvni, objeto estranho que paira dentro
de um emaranhado sistematizado, segredan-
do uma pulsão onde não se espera.
Mas seus grandes momentos não se de-
vem mais a um filme que abolisse totalmente
essas três questões. E com isso, somos capa-
zes de conversar um pouco sobre Boyhood:
Da Infância à Juventude, que então viria
como uma espécie de salvação, de compro-
vação pelo tempo dessa questão de tempo
prefigurado no título desse texto.
Deve-se esperar no filme então um dila-
ceramento, uma confusão da encenação e a
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própria vida do seu protagonista, que Linkla-
ter irá roubar suas experiências através desse
pacto, tornando a obra ambígua, duvidosa e,
portanto, fascinante aos nossos olhos.
Não é o que acontece. O fascínio que
existe em Boyhood: Da Infância à Juventu-
de vem justamente pelo contrário: pelo res-
peito à experiência privada, por acompanhar
aquele rapaz menos como protagonista do
que observador-espectador do mundo ao seu
redor. E nesse sentido, Boyhood: Da Infân-
cia à Juventude se aproxima a uma ideia de
documentário pelo caráter sazonal da vida,
pela memória que nós mesmos temos do
passado, de nossas experiências.
São as coisas como elas são: deixamos
passar os principais acontecimentos particu-
lares de Mason, e isso torna o filme tão belo
quanto inexpressivo por certos momentos.
Não precisamos disso, como não preci-
samos do excesso de encenação. Não impor-
ta como se desenvolvam, ambas serão sem-
pre permeadas por uma questão de verdade.
É isso que fundamenta de fato os teen mo-
vies. Aqueles que acreditam no que fazem, e
os que acreditam no que veem.
Os três tempos então podem sobressair
quando possível para ajudar, podendo ainda
a ser anulados, desmantelados por um filme
como Boyhood: Da Infância à Juventude.
E no fundo, são questões que nunca serão
maiores do que aquilo que há de sincero na
vontade de se representar algo.
“Let it roll across the floor
Through the hall and out the door
To the fountain of perpetual mirth
Let it roll for all it’s worth”
George Harrison