Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 60
Não lembro quem falou
que o problema do passado é
que ele se torna presente o tem-
po todo. E também não lembro
quem disse que uma memória
está fadada a sempre virar a
“memória da memória” toda
vez que recordada.
Só lembro, por escrever
aqui, que os grandes milagres
dos teen movies (e, porque não,
do cinema em geral) são tornar
a memória da memória em um
contínuo “presente do presente”
que nunca deixamos de viver,
por mais longe e esquecido que
passado e experiências se en-
contrem dentro de nós.
E assim, agora, lembro que
Bénard da Costa, escritor e crítico
de cinema, fala sobre a lembrança
de um filme chamado Aconteceu
Amanhã (It Happened Tomor-
row, 1944), de René Clair, e o
que o seu título evoca: “Em arte,
nada acontece e tudo aconteceu.
Amanhã. O verbo no passado e o
substantivo no futuro”.
E ao cabo que por esses
filmes, por esse gênero, lem-
bro sempre do que vivi através
do que vi. E hoje, ao mesmo
tempo, também aprendo que
existem certos filmes que só
podem ser compreendidos de-
pois de experimentadas certas
coisas em vida. Estava lá desde
sempre, mas não as tinha vis-
to antes, do mesmo modo que
aprendi outras antes de serem
apresentadas em vida.
Como duas correntes con-
trárias e indiferentes, que em
algum ponto se encontram oca-
sionalmente, por sua aparente
diferença...
E por final, lembro mais
uma vez, que “cinefilia não é
apenas uma relação especial
com cinema; é uma relação com
o mundo através do cinema”.
Quem o disse mesmo? Não
me recordo mais...
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