Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | страница 58

Mas algo é certo: a partir do momen- to que lançados nesse mundo, os atores se desenvolvem ao seu modo, e são exemplifi- cações claras da chamada borboleta de Grif- fith que Biette (uma aparição não planejada dentro da cena que a ressignifca pelo acaso) versou um dia. Podem a qualquer momento serem capaz de invadir o quadro algo não premeditado, um sorriso não consentido, uma expressão não dissimulada que surja pela ver- dade do contato deles com a situação. Ao mesmo tempo, essa fusão e disso- nância entre a encenação é a chave mestra para a qualidade desse modo de se fazer o filme, é um método bastante perigoso. São grandes os intérpretes de um filme apenas, daquelas atuações estelares que nascem fa- dadas a aparecer durante apenas uma vez pelo écran. Ascensão e queda por apenas um curto tempo, pela duração de uma obra. Solta-se do estreitamento, por vezes no- civo, por vezes benigno, entre a ficção e o real, uma confusão que é capaz de render para um filme uma atuação absurda, mas que traga um conflito pernicioso para aquele ator em cena, duplamente atormentado pela situa- ção da cena, dos ecos em sua própria vida. É dessa pulsão, digladiada por uma ques- tão moral, que nasce o abraço não premedi- tado de James Dean em Raymond Massey em Vidas Amargas (East of Eden, 1955), de Elia Kazan. Não se encontram nem ator nem personagem em cena. Todo o pathos da cena é tanto pelo peso dramático da querela de Cal Trask e Adam Trask que estamos acom- panhando pela obra do escritor John Stein- beck, quanto do embate pessoal entre James Dean e o ator Raymond Massey, de relação notadamente conflituosa no set do filme. E ainda em um terceiro plano, a história particular de James Dean com uma figura paterna, inerente aos dois outros conflitos, onde a representação contida na obra du- rante a ação, na figura fora da filmagem, é refletida sob os próprios fantasmas pessoais do ator. Um exercício muito moderno, feito de outra maneira por realizadores como Ros- sellini, onde aquilo que antecede e precede a gravação da cena influência diretamente na realização da própria. Não é um mero roteiro mais que se filma. As Vantagens de Ser Invisível joga-nos outro interessante caminho. Um filme que se passa nos anos 90 e não tem pudor algum de ignorar o mesmo. Em todos os aspectos, seja no visual, seja no temporal, seja no emo- cional. A origem do retrato não é muito di- ferente do filme de Lucas. É novamente um realizador que escreveu um livro no final dos anos 90 e acaba por adaptá-lo em filme uma década depois. E ao ignorar seu tempo “protocolar”, o filme abre-se totalmente para o seu presente, e torna-se um dos grandes filmes sobre o que é adolescência nos anos 2000, de sua meta- de para a virada dos anos 10 desse século. Novamente, o passado é mais uma superfície que permite uma camada para que a história seja novamente contada, pesando agora pelo contraste ao presente. De todos, talvez seja o mais documen- tal de fato. O “talvez” é importante. Nunca saberemos. Mas é notável que os três pro- tagonistas, atores-mirins, não possuem uma adolescência corriqueira por suas carreiras. E que em fases cruciais de formação, foram confrontados pelos limites de encenação e realidade que já falamos sobre Dean. E não precisamos entrar na sua vida pes- soal para vislumbrar que o filme torna-se uma brincadeira de retomar essas conjuga- ções recentes dos três, de particular e públi- co, que nunca foram invisíveis, e que agora são capazes de afirmar que existem, que es- tão ali a viver algo, e que aquilo permanece- rá enquanto eles forem embora, enquanto o tempo se for, enquanto tudo escorrer. Grava- -se no filme todo o “will” e “can” presentes 57