Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 57

EXISTE um caráter documental dentro das obras que se aventuram em filmar uma experiência adolescente que figura essencial para sua substância. Porém o que diferencia esse caráter, quase inequívoco, daquele pre- sente em toda ficção? Daquela busca por um instante de verdade através desse teatro as- sumido que se desenrola diante da câmera? Dentro de uma arte demasiadamente pre- meditada, a captação de um acontecimento real encontra-se como um interessante para- doxo. O universo cinematográfico tem como base lapidar a mise en scène, uma estratégia não apenas de emulação, mas também capaz de abrir essa brecha por onde o lado documen- tal possa se fundir ao material bruto da ficção. Mesmo que ambos nasçam por caminhos opostos, essa pulsão documentária ineren- te colabora como se em ambos os registros ocorre-se uma filiação mútua, adensando a experiência representada através de sua mes- cla e dependência. Com isso levantando, é preciso notar que os filmes sobre adolescên- cia adquirem uma força ainda maior do que a natural quando resvaladas aí. Não existe nenhum período da vida que tenha sido codificado como um gênero como os chamados teen movies. Novamente, outro paradoxo: mesmo diante de um período de formação reconhecível a todos nós, estamos diante de uma experiência que quando repre- sentada no cinema adquire uma mitologia própria, com seus próprios arquétipos, situa- ções emblemáticas e confrontos universais. Com isso, sublinhamos que a experiên- cia adolescente adquire esse contorno mítico justamente pelo seu caráter universal, pelo recorte que faz do particular, espelhado ao geral, no atemporal... É possível avaliar que no fundo essa potência, essa pulsação latente da vida que se espalha por esses filmes, vem primordialmente por uma questão de tempo. 56 Aprofundemos, como exemplo des- sa questão, três filmes: Loucuras de Verão (American Graffiti, 1973), de George Lucas, As Vantagens de Ser Invisível (Perks of Being an a Wallflower, 2012), de Stephen Chbosky, e Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Con- fused, 1993), de Richard Linklater. E certo revés com essa mais recente experiência de Linklater no “gênero”: Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood, 2014). De semelhante entre eles, uma manei- ra se relacionar com diferentes formas de representação do tempo: uma cosmética de imagem de uma época, uma atmosfera pre- gressa que ainda está imersa no presente, em um embate com os “corpos” que são fruto total de seu tempo, vidas e pessoas onde a inevitabilidade do presente é uma dádiva para esses filmes. O filme de George Lucas é um caso de cosmética. De um período, os anos 50, de onde o filme extrai sua vivacidade, pela me- mória, pelo quanto é possível se relacionar com essa ideia de emulação. É um filme que procura abertamente não dialogar em nada com o seu presente, com a década de 70. George Lucas não sabe dirigir atores, qual- quer um de seus outros filmes atesta isso, sua preocupação é sempre outra. O que causou a quantidade de grandes atuações no filme foi justamente esse caráter documental do presente, ao condensar den- tro de um espaço, dentro de uma estrutura, sua experiência particular (sua infância e juventude) com um período, sendo capaz de transpor então para seu filme uma atmosfera inconsciente. A potência do Curt de Richard Dreyfuss nasce de sua completa independência do tra- balho de direção, ainda que ela só exista por esse contexto específico. São esses os filmes que poderíamos quase categorizar como ausen- tes de mise en scène, caso não houvesse toda essa prévia organização cênica do período. NAS PÁGINAS ANTERIORES, CENAS DE LOUCURAS DE VERÃO (1973). NO DETALHE INFERIOR, RICHARD DREYFUSS.