Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 53

mo e o estilo de música, que acompanham quase sempre nossos personagens (muito semelhante aos da banda deles), primeiro cessa, e dentro da casa praticamente inver- te, parecendo muito mais com uma música que elas provavelmente escutariam. Estão conhecendo mais um universo na sua intimi- dade, os olhares dos meninos materializam esse desvendamento. Elas os recebem muito bem, oferecem refrigerante para todos, que ficam do lado de fora andando de skate, pulando mais uma escada. Kico e Jonathan sobem com elas para seus quartos. A melhor cena dessa sequência – e quiçá a melhor do filme – será com Kico e não com Jonathan. Ele e a outra menina que são aparentemente secundários no filme terão aproximadamen- te sete minutos de apenas conversa na inti- midade do quarto. Com isso, retomamos ao que falamos no início, condensado de forma sublime dentro dessa cena. Aquilo que inte- ressa ao teen movie é a vida, os acontecimen- tos aparentemente menores, momentos de pura intimidade e simplicidade, a verdade da adolescência. A cena não será apenas a re- presentação desses momentos, mas será por si só um deles. Os dois, Francisco Pedrasa e Jessica Steinbaum, conversam livremente – sem nenhum texto e marcação –, tentando entender como é a vida de cada um. Não se contentando com a verdade puramente docu- mental, Clark procurará a carne, a respiração e o batimento cardíaco dos dois com a proxi- midade da câmera; filmará partes isoladas do corpo, encontrando algo ainda mais profun- do e real naquela relação física. A cena aca- ba quando Kico é impedido, pelos namora- dos das meninas, de tirar pela primeira vez a calça (tem uma resistência e nunca consegue tirá-la durante o filme) – provando, entre ou- tras coisas, que a afinidade dos dois era mais afetuosa do que simplesmente desejo sexual. Por mais que nossos personagens saiam correndo da casa, apanhem e batam um pou- co nos meninos, as garotas serão as únicas 52 pessoas realmente pertencentes dessa socie- dade que os tratarão com igualdade. Dentre todas as relações do filme, a única verdadei- ra será entre adolescentes. A diferença social só se mostra sem solução quando há a distância que separa as gerações. A juventude tem algo em comum que vai além das relações definidas pela sociedade, pelos adultos; uma juventude transgressora e menos dominada pelas ideolo- gias, a mesma na qual John Hughes acreditou, aquela que poderia mudar o mundo. Depois dessa casa, todos os outros espa- ços adentrados pelos garotos no filme serão dignos apenas do absurdo, cada vez mais in- tenso. Entram em lugares onde eles parecem completamente deslocados, acordados em mundo completamente surreal, mas que têm efeitos reais sobre eles, como o assassinato de um dos jovens por uma espécie de Hes- ton-Eastwood. Todo esse absurdo culmina- rá em uma última cena antes de fugirem de volta para suas casas, em que uma mulher morre eletrocutada na banheira após puxar o lustre que ficava ignorantemente logo acima. Uma das mortes mais idiotas e talvez a mais aleatória filmada pelo cinema, mas que exis- te pelo absurdo que é Beverly Hills. A volta para casa será longa e difícil; pe- garão uma carona, seus skates, um ônibus e ainda mais um bom caminho a pé. Apesar de Wassup Rockers ter claramente um aspecto social, moral (aspectos que Clark gosta de ressaltar sobre seu cinema 1 ), e ainda poder 1 Larry Clark vai afirmar em várias entrevistas que faz seu cinema para ensinar os adolescentes, para eles assistirem e conhecerem os perigos do mundo, princi- palmente das drogas, as quais fizeram parte da vida de Clark, mas ele conseguiu sair.