Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 52
compartilharemos seus ensaios de banda, as-
suntos, risadas, passeios de skate, relações.
Aproximamo-nos diretamente de suas ado-
lescências, as entendemos e somos cúmpli-
ces delas. Esse é um processo muito presente
em todos os filmes do diretor, muitas vezes
acusado de julgar seus personagens 1 , mas
que, na verdade, realiza o movimento contrá-
rio. Ele se aproxima e faz-nos aproximarmos
dos corpos e da vivência daquelas pessoas.
Podemos não achar correto o que fazem, mas
entenderemos. Essa aproximação está até
nos seus planos, muitas vezes com a câmera
bem próxima, pegando detalhes do corpo e
percorrendo por ele, procurando sentir sua
respiração, sua existência. Lembra nesse as-
pecto o cinema que Gus Van Sant 2 , Claire
Denis, entre outros cineastas atuais, fazem.
No segundo dia, esses adolescentes deci-
dem ir para Beverly Hills. Estão com o carro
lotado, até mesmo com um casal no porta-ma-
las, mas estão convictos de ir até lá andar de
skate. Logo no início do trajeto, dois policiais
de bicicleta param o carro. Descobrem que ne-
nhum deles tem habilitação e dizem que terão
de apreender o carro. Estão fazendo apenas
seu trabalho, pois um dos policiais até mesmo
pergunta a um dos meninos se ele conhece os
Ramones. Policiais completamente diferentes
daqueles que encontrarão em Beverly Hills,
um bairro totalmente distinto.
Poderia ser em qualquer outro lugar, mas
o que interessa é estar longe de casa, e em
lugares e escadas diferentes para saltarem.
Veremos durante muito tempo eles tentando
as mais diversas manobras, pulando várias
vezes e caindo em algumas dessas tentativas.
O plano que Clark vai escolher para filmar
essa cena será o mesmo dos vídeos de skate
(muito comuns na internet), não se preocu-
pará em tentar inventar algo, recorrerá ao
clichê, vendo os skatistas da forma mais
próxima àquela realidade. A diferença será
na extensão dos planos em que filmará os
saltos, os tombos, e também eles levantando
e conversando, pois o interesse dele não está
nas manobras. Depois de um tempo, não tão
breve por aproveitar bastante os planos de
skate, duas patricinhas de Beverly Hills se
aproximam dos garotos, com interesse físi-
co em Jonathan e Kico, convidando-os para
visitá-las na casa de “fonte cor de rosa e um
Thunderbird vermelho na porta”. Após elas
saírem, o outro policial vai “enquadrá-los”.
Diferentemente dos outros dois de bicicleta,
esse estará sozinho com um carro grande e
caro. O contraste de classes já está claramente
anunciado até mesmo na polícia. Além da dife-
rença sociológica da cena, há o absurdo com-
portamental do policial, uma figura que nem
mesmo é respeitada pelos adolescentes. Não
o levam a sério, riem enquanto ele pergunta e
fala grandes bobagens. Chegará ao ponto de um
dos adolescentes correr ao carro do policial e
pegar sua comida, ameaçando comê-la se não
os soltarem; um fim de ironia excelente para
uma cena muito bem construída. Um deles será
preso pelo policial, e os outros correrão. O se-
gundo contato com essa sociedade resultará no
primeiro choque com os adolescentes.
1
Há várias criticas sobre Larry Clark como trata e jul-
ga seus personagens em seus filmes, principalmente no
seu filme Ken Park (2002), acusam de ser superficial e
apontar os problemas daqueles adolescentes com uma
distância negativa.
2
A relação com o cinema de Gus Van Sant é grande,
desde seus planos, seu fascínio pela juventude e o pri-
meiro filme de Clark primeiro filme Kids e os Profis-
sionais vai ser produzido pelo diretor.
O primeiro contato com as meninas foi
breve, mas haverá um segundo, quando os
adolescentes encontram a casa das garotas
com o carro vermelho e a fonte rosa. O rit-
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