Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 51

adolescência, e negando o rito de passagem, a vida adulta. Clark tem 71 anos e é a prova de que a sua adolescência está mais fixada na sua história e na sua arte do que podemos fixar uma foto em uma parede. Um dos planos mais incríveis de Wassup Rockers vem logo em seguida. Depois que todos os personagens acordam, um deles sai de casa com seu skate, e um travelling out vai andando junto com esse jovem; logo os outros adolescentes a quem já fomos apre- sentados entram em cena com seus skates e o travelling continua com todos em cena. Acompanharemos esses adolescentes e par- ticiparemos do movimento deles. O skate, para Larry Clark, é um ícone fundamental para a adolescência que retrata. É não só um símbolo de rebeldia, conhecido por todos, mas também de liberdade e ris- co simultaneamente; um meio de transpor- te com o qual os jovens podem percorrer o caminho em direção à fase adulta. “(...) vi- vem sobre seus skates, logo acima do chão, abaixo do teto – ou entre o céu e a terra”. Essa definição de Luiz Carlos Oliveira Jr., cineasta e crítico de cinema, em uma crítica a Paranoid Park (2007), de Gus Van Sant, se encaixa perfeitamente no cinema de Clark. Curiosamente o primeiro plano de seu últi- mo filme, Marfa Girl (2012, lançado apenas na internet. O diretor não quis colocá-lo nos cinemas), parece ser a imagem exata dessa frase: um skate e pernas cortadas pelo qua- dro, o horizonte divide na metade a tela, chão embaixo e céu em cima. É nesse plano que estão os adolescentes em Wassup Rock- ers, entre a infância – o céu, a imaginação, a fábula – e a fase adulta – a terra, a concretu- de, a realidade. Interessante perceber que no final do filme nossos personagens abandona- rão seus skates, não estarão mais com eles no 50 pé, mas sim com os pés no chão e os skates nas mãos, carregando, desse modo, o prazer e o peso de suas adolescências. Condensado em uma sequência, e mais ainda em uma única cena, tomaremos cons- ciência de que esses jovens estão realmente entre a idade adulta e a infância. Veremos Jonathan conversar com uma menina e mar- car com ela uma ida a casa dele. Na cena se- guinte todos os sete vão para um parquinho, empurrar uns aos outros, divertir-se, brincar. Jonathan aparece falando para um dos meni- nos que precisa ir embora, e simplesmente sai de cena. Ficamos mais um tempo com os outros personagens, e o corte vem para a pró- xima cena, em que ele, Jonathan, está deitado na cama com a menina com quem combinou de ir para casa. Entendemos que, enquan- to os outros garotos estavam brincando, os dois muito provavelmente estavam fazendo sexo. Para não restar dúvida de que Jonathan também faz parte dessa certa “contradição”, Clark confirmará a dualidade desse período adolescente em seguida. Filma como poucos as cenas de afeto dos dois, com um frescor, uma câmera singela e bela. Os atores, como em todo filme, parecem estar apenas apro- veitando o momento, vivendo. Somos, os dois e nós espectadores, interrompidos pela porta que se abre no quarto e outro garoto entra. Jonathan levanta, pega um violão, toca um pouco, e seu amigo pergunta se não quer fazer uma “briga de manos”. Eles pegam bo- necos e brincam entre si, misturando brigas e sexo representados por bonecos. Só essa brincadeira já apresentaria o necessário, mas o fato de tudo acontecer no mesmo plano e de a menina estar assistindo a isso da cama, sorrindo e se divertindo, mostra-nos, com a própria imagem, que ser adolescente é estar nessas duas fases ao mesmo tempo, nesse caso até no mesmo espaço. Muito do que parece ser o dia a dia desses adolescentes será apresentado a nós,