Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Página 50

cer mais próximo de um teen movie de gê- nero colabore também para esse julgamento – diria precipitado –, no entanto, esse mesmo ponto me faz ter ainda mais interesse pelo seu trabalho. Para aqueles que já são detra- tores de seu cinema, acredito que esse filme em específico tenha uma chance a mais de ser apreciado. O primeiro plano do filme, ou melhor, os dois primeiros planos – pois a tela é di- vidida ao meio – já nos dizem muito sobre o cinema de Larry Clark. Primeiro ponto é sua característica documental, a qual é re- corrente em suas obras. Começa com uma entrevista do protagonista do filme, grava- da provavelmente no período de preparação do elenco. Nesse caso, Jonathan Velasquez, apenas um garoto do subúrbio sem nenhu- ma relação com fotografia ou cinema até seu primeiro contato com Larry Clark. Nessa questão há um diálogo claro com o cinema neorrealista de filmes como Alemanha, Ano Zero (Germania Anno Zero, 1948), de Ro- berto Rossellini, à Infância Nua (L’enfance Nue, 1968), de Maurice Pialat, que escolhe, na maioria das vezes, modelos para o seu ci- nema ao invés de atores. Clark, dessa forma, deixará seus atores muito próximos deles mesmos, nem mudará, no caso de Jonathan, o nome do personagem, e logo no início será perceptível que ele está realmente cru. Em suas falas, por exemplo, repete exaus- tivamente “and then”, o que até pode nos incomodar, mas de forma alguma incomoda Clark, que não pretende tirar as manias de seus personagens, seu desejo é vê-las em quadro. Escolher, para início do filme, um plano documental me parece completamente acertado, não só por ter consciência de seu próprio cinema e do filme que está fazendo, mas também por perceber que é nessa rela- ção que pode encontrar aquilo que deseja em seus personagens. Outra característica que já podemos perceber de sua obra está relacionado não só ao vestuário de Jonathan como também à divisão de tela proposta por Clark. Entrevista seu personagem sem cami- seta, frontal e ¾, dividindo a tela no meio para vermos os dois planos ao mesmo tem- po. Uma tentativa de nos aproximarmos do corpo daquele jovem, de mostrá-lo em sua existência física, real, tridimensional – ado- lescência na própria carne. Evidencia, nesse momento, seu interesse pelo corpo humano, pelo nu, e principalmente pela caixa torácica desses adolescentes, muitas vezes símbolo de liberdade. Após os créditos, teremos uma ótima se- quência dos personagens acordando, e junto aos dois primeiros, Jonathan e Juaito, fotos de sua infância. Além de ressaltar o caráter documental, elas nos dizem mais sobre o in- teresse e a importância da fotografia para o cineasta, que se relaciona ao segundo ponto importante nessa composição. Sua crença é que, assim como a fotografia e o próprio cinema, esses momentos, principalmente os da adolescência, continuam existindo con- densados, independente do tempo que já se passou. O final de Kids e os Profissionais (Another Day in Paradise, 1998) constrói-se até mesmo oposto à maioria dos teen movies, o protagonista, que passa o filme em compa- nhia de sua namorada e dois adultos – viven- do como um deles –, foge em um belo movi- mento de grua. Na frente, temos o carro com os dois adultos que esperam pelo seu retor- no, a câmera vai subindo até ficar mais alta do que o posto de gasolina que eles estão, e vemos distante, no meio de um vasto cam- po, nosso protagonista correndo livre. Está fazendo o processo contrário, retornando à 49