Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 49
para abraçar a menina no cinema – como em
Houve Uma Vez Um Verão (Summer of 42,
1971), de Robert Mulligan –, um sorriso,
uma troca de olhares, uma dança – como a
de U.S. Go Home (1994), de Claire Denis –,
uma conversa entre um nerd e o mais popu-
lar da escola – Gatinhas e Gatões (Sixteen
Candles, 1984), de John Hughes –, enfim,
serão esses os tempos de verdade de nossas
vidas. Momentos singelos, de intimidade e
de cumplicidade entre esses jovens.
Há felizmente no cinema uma capacida-
de natural – pois é de sua própria essência
captar o movimento e a matéria –, e ao mes-
mo tempo quase mística de reproduzir esses
instantes, essas fagulhas feitas por esses cor-
pos nesses tempos. É essa qualidade que fará
os teen movies terem tamanha alma, aspectos
documentais que ultrapassam o quadro cine-
matográfico. A alma da juventude se mostra
aparente através do cinema e o transcende.
É nessa chave de documentação, transi-
ção, deslocamento, fisicalidade, corpo, vida
e, claro, juventude, que o cinema de Larry
Clark encontrará sua existência e verdade,
sinônimo conhecido de beleza. Ele será ain-
da mais direto ao afirmar que a vida não se
vive na escola, menos claro em seu discurso,
porém mais focado no que lhe interessa. Di-
gam o que Quiserem (Say Anything, 1989),
de Cameron Crowe, é um dos exemplos mais
notórios dessa afirmação, pois nesse filme a
protagonista começará se formando na es-
cola, oradora da turma – uma das melhores
alunas – e só nas suas férias viverá realmen-
te sua adolescência. Só com esse tempo de
vivência poderá chegar à fase adulta. Ques-
tão que se repete em muitos outros filmes,
mesmo em Clube dos Cinco (The Breakfast
Club, 1984), de John Hughes, que se passa
o dia inteiro na escola. O verdadeiro apren-
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dizado daqueles personagens não vem dela,
mas sim das relações entre eles. É apenas
o confinamento que gera a carta que escre-
vem para o diretor, ensinando nela quem
eles realmente são, negando até mesmo os
rótulos criados dentro da escola – e, nesse
caso, também os estereótipos do gênero. O
cinema de Clark realmente não dará atenção
a essa entidade, ela é bem menor que a respi-
ração de seus personagens.
Roqueiros (Wassup Rockers, 2005) é
o filme mais negligenciado, subestimado e
até mesmo ignorado do fotógrafo e cineas-
ta norte-americano Larry Clark. Não faço
aqui mais do que o mínimo, que é entender,
criticar e ressaltar um grande filme. Temos
que admitir que esse é o trabalho mais pe-
culiar do diretor, e provavelmente seja esse
um grande motivo para ser uma obra menos
reconhecida.
Larry Clark é conhecido por ser um dos
diretores mais polêmicos da atualidade, seus
primeiros trabalhos fotográficos – espaço
em que começou sua carreira artística – já
continham esse viés “real demais” 1 e por isso
polêmico. Quando adolescente, fotografava
seus amigos de maneira crua, vivendo em
um grupo de jovens que dialogam bastante
com aqueles representados em seus filmes;
o uso de drogas, as cenas de nudez, violên-
cia, e até mesmo atos de imaturidade sempre
foram pontos fortes não só em sua carreira,
mas em sua vida. Por não representar esse
universo de maneira tão bruta em Wassup
Rockers – e por isso é seu filme com me-
nor classificação etária – torna-se uma obra
considerada menor, principalmente por seus
admiradores. Provavelmente o fato de pare-
1
No seu primeiro trabalho de fotografia, livro Tulsa,
chegaram a falar para ele que não se interessavam pelo
trabalho pois era real demais.