Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 48

A ADOLESCÊNCIA ganhou um gênero próprio dentro do cinema, o que não acon- teceu claramente e com tamanha força com os outros períodos da vida humana. Isso não é à toa – há inclusive interesse financeiro e comercial –, visto que é realmente possível estabelecer convenções de gênero para essa época por um motivo que me parece bem claro: há uma essência universal e particular em todos os jovens – ou em boa parte deles – que pode ser captada pelo cinema. Já sabemos que é na infância, caracte- rizada diretamente na ficção, que boa parte de nosso psicológico é formado – imagina- ção, medo, trauma 1 . Somos, nesse momento, um espectador da magia do mundo, de sua grandeza, de seus mistérios, sentados nos so- fás de casa ou nas carteiras das escolas, ou, quem sabe, nas poltronas do cinema, que, as- sim como a vida, se apresenta à nossa frente em uma grande tela. A adolescência como passagem por ex- celência ao mundo adulto vindo desse pe- ríodo infantil fará o movimento contrário. É nesse ponto que se estabelece parte de uma das principais questões abordadas pelos mais diversos teen movies, o confronto de gera- ções. É preciso vencer o mundo que os cerca e prende, é necessário enfrentar a escola para que possam pegar suas mochilas e ir viver 2 . Abandonar a academia. Sair da posição de criança e ir onde quiser. Enfrentar os pais e o sistema para que possa apreciar sua liber- dade. Correremos riscos e enfrentaremos o 1 Freud foi um dos maiores teóricos a explorar essa construção do psicológico humano na infância. 2 Werner Herzog até mesmo afirmou (em uma master- class) que para fazer cinema deve-se pegar sua mochi- la e ir às ruas, trabalhar, viver mundo, pelo desejo que temos de vivê-lo in- tensamente, ainda com a bela inocência que carregamos, acreditando que tudo podemos fazer e mudar. “É procurando o impossível que o homem sempre realizou e conheceu o possível, e os que se limitaram sabiamente ao que lhes parecia o possível nunca avança- ram um único passo 3 ”. Andaremos pela primeira vez com nos- sas próprias pernas (ou com nossos skates) em direção à grandiosidade do mundo. Esse deslocamento me parece um dos pontos mais fundamentais para a adolescência e para o gênero, não só por ser uma metáfora de transição, partida do ponto A, infância, para o ponto B, fase adulta, mas por mostrar a necessidade de sair de seus espaços co- nhecidos – casa, escola, até mesmo o bairro –, para realmente conhecer o mundo e a si mesmo. “Quem não se movimenta, não sen- te as correntes que o prendem” (ROSA LU- XEMBURGO). É nesse viés que encontrare- mos umas das questões mais fortes nos teen movies. Não é na escola que aprenderemos sobre a vida, precisamos estar fora dela para realmente nos tornarmos adultos. “A verdade tem de ser vivida, e não ensinada. Prepara-te para a batalha!” (SLAVOJ ZIZEK – Vivendo no fim dos tempos). Aquilo que existe de essencial nesse pe- ríodo é completamente físico, às vezes até material. É preciso estar, fazer, viver, – até mesmo sentir, também expressado no físico –, não adianta mais imaginar ou simples- mente observar. Os momentos que realmen- te serão sentidos como infinitos 4 , ou pelo menos lembrados como, são, no entanto, os mais singelos, breves, por vezes bobos ou aparentemente insignificantes. São os pe- quenos gestos; aproximar calmamente a mão 3 Mikhail Bakunin – Conceito de Liberdade – Pág. 9 Obras, III, 325-326, 70 4 As vantagens de ser invisível (Perks of Being an a Wall- flower, 2012), de Stephen Chbosky, vai propor a existên- cia desses momentos que sentimos como infinitos. 47