Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 38
A REALIDADE
Primeiros planos do filme. Uma criança
(Bruno) chega em uma estação de trem, so-
zinha e carregando uma mala e uma gaiola.
Ela confere um mapa feito à mão e na se-
quência chega em um complexo residencial
popular, de diversos apartamentos conjuga-
dos e sem muito interesse arquitetônico ao
redor. O centro da cidade, veremos em pla-
nos seguintes, é uma imagem no horizonte
desses moradores. Ele entra na casa da mãe,
que não está presente, mas que telefona para
ele e deseja boas-vindas. Em um só plano
e com pequenos movimentos laterais, Bris-
seau apresenta o cômodo principal do peque-
no apartamento, mostra Bruno falando ao
telefone e Bruno observando outro corredor
do imóvel, com uma mulher de aspecto mis-
terioso. Em menos de seis minutos, o filme
passa de uma encenação realista para a fan-
tasia (onírica? Alegórica?). Um novo plano
de detalhe da gaiola, sem ver-se o pássaro
que Bruno trouxe. Outro plano: a câmera
move-se frontalmente pelo corredor, como
um travelling in, supondo um plano ponto
de vista do menino, mas que se revela um
movimento autônomo,
porque ao fim do cor-
redor ela enquadra o
quarto à direita e revela
Bruno interagindo com
a mulher misteriosa, que
passa a mão nos cabelos
do garoto.
No plano seguinte,
a mulher já está nua so-
bre a cama. Ela chama
Bruno, que se aproxima
em um plano geral e
ambos se beijam (Bruno
de costas para a câme-
ra). No plano detalhe do
corpo da mulher, a mão
de Bruno a acaricia, começando pelos seios,
percorrendo a barriga e seguindo sua cintura,
chegando nas coxas. Quando vai subir sua
mão, há um plano da águia alçando voo e
outro dela atacando Bruno.
Duas questões extraordinárias na cena:
1) Seu caráter onírico em meio ao filme
todo de aparência realista. Essa sequência vai
atormentar o espectador por sua recorrência
(em pequenas inserções da mulher nua) e por
sua forte tensão sexual. O sexo, como a vio-
lência, são questões centrais no filme.
2) O choque entre a infância e a sensua-
lidade da cena. O ator que interpreta Bruno
evidencia ser uma criança em torno dos seus
13 anos. Ele realmente se aproxima da mu-
lher nua e eles aparentemente se beijam. No
plano seguinte, vemos apenas a mão de Bru-
no acariciando o corpo nu da mulher. Um
dublê de mão pode ter sido usado (apesar de
a mão aparentar delicadeza crível à idade do
protagonista). Mas, a simples sugestão – um
garoto de 13 anos acariciando sexualmente
uma mulher adulta – é impressionante por si
só e extraordinária em nossa sociedade con-
servadora. É também uma imagem que não
existe no cinema tradicional e conservador.