Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Página 37
Som e Fúria é o epicentro desse seu ci-
nema histérico. Junto às suas obsessões e
referências artísticas, Brisseau insere uma
temática social urgente na França de 1988.
Esta temática é constante até – ou principal-
mente – hoje em nosso Brasil: a desilusão,
a mediocridade e a violência de uma juven-
tude que se vê provida de subsistência, mas
sem maiores perspectivas de sair do lugar-
-comum. Uma população suprida de assis-
tência social, mas não educada para trans-
cender sua própria realidade.
O filme também possui uma clara li-
gação com Os Incompreendidos (Les 400
Coups, 1959), de François Truffaut, e Infân-
cia Nua (L’Enfance Nue, 1968), de Maurice
Pialat. Os três juntos formam uma espécie
de trilogia que retrata a infância e juventude
francesas vivendo miseravelmente na segun-
da metade do século XX.
UM SONHO DE LIBERDADE?
Como em um drama clássico, o protago-
nista de Som e Fúria, Bruno (Vincent Gaspe-
ritsch), de 13 anos, vive preso em seu mundo
hostil, mas sonha com a transcendência desse
plano físico. Ele cuida de um pequeno pás-
saro, que ganhou de um colega que se suici-
dou. O pássaro está em cena, aos cuidados de
Bruno, e motiva algumas de suas ações, mas
Brisseau não promove discussões a respeito
da simbologia. Qualquer análise psicológica
(e simbólica) recai ao espectador, pois Bris-
seau é um encenador de gestos e ações físi-
cas. Os seus personagens partem de pulsões
sentimentais (paixão, medo, ciúme, raiva) e
materializam as em ações concretas.
Há uma mulher que surge magicamente
para Bruno (nos créditos ela é denominada
“Aparição”). Inicialmente ela se apresenta
nua, ostentando uma águia em seus ombros.
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JEAN-CLAUDE BRISSEAU
Bruno se aproxima dela, inebriado, toca seu
corpo, e quando leva sua mão até o meio das
pernas da mulher, é atacado pela águia. Nas
sequências seguintes o rosto de Bruno osten-
ta as marca da agressão.
Este estranhamento entre plano físico e
onírico atormenta Som e Fúria. Ele é inicial-
mente um filme preso à realidade, com uma
encenação bastante objetiva que, de repente,
apresenta uma sequência fantástica. Esta fra-
tura nos impediria de encarar o filme como
“realista”, mas, o que Brisseau parece nos di-
zer é justamente o contrário: quem disse que
a realidade é cartesiana e compreensível de
forma racional? Não temos acesso às emo-
ções de Bruno, que se mostra um ser tão puro
e que é levado aos fatos pelas pessoas que se
relacionam com ele – a sua professora, seu
amigo Jean-Roger e a Aparição. Assim, não
há justificativas óbvias para ninguém.
Apesar de Brisseau manifestar aberta-
mente seu interesse por psicanálise (como
mostrado em À L’aventure, de 2008), o que
ressalta em seus filmes são os gestos de seus
personagens. Eles são julgados, condenados
e absolvidos por aquilo que fazem, e não por
aquilo que supostamente poderiam desejar.
A figura de Bruno é a mais trágica de seu
cinema porque é um ser ingênuo e que está
à mercê do seu meio. É uma criança, afinal
de contas, e que poderia tanto ser educada (se
não pela mãe ausente, pela professora) quanto
destruída (por Jean-Roger e pelo ambiente de-
gradante). O destino de Bruno é trágico. Afi-
nal, Som e Fúria, apesar de ser revestido com
uma roupagem moderna, é uma tragédia clás-
sica. Não há escapatória para nossos heróis.