Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 36
TEEN MOVIES
Afinal o que seriam teen movies? Filmes
feitos para jovens? Filmes de temáticas jo-
vens? Filmes cujos protagonistas são jovens?
E, mais ainda, o que seria essa tal juventu-
de? Crianças? Adolescentes? Jovens adultos?
Difícil dizer, se cada vez mais em nossa socie-
dade a juventude parece adiar a vida adulta.
Nichos de filmes são criados e forta-
lecidos constantemente. Filmes de e para
jovens são um nicho comprovado, mas, se
formos abordar a questão de um segmento
específico, estaremos falando de um oportu-
nismo reiterado (fazer filmes para nichos).
As grandes obras artísticas não são feitas
por demandas sociais, mas sim por deman-
das sentimentais dos seus realizadores. E
muitas vezes a necessidade é falar sobre um
período específico da vida. Muitas vezes, fa-
z-se grandes filmes sobre jovens porque se é
jovem. Em outras, para alimentar suas fanta-
sias, ou ainda para espantar seus demônios.
Mas, dificilmente se cria grandes obras para
atender uma urgência social (ou comercial),
como conscientizar a garotada da importân-
cia do uso se preservativo sexual. Picardias
Estudantis (Fast Times at Ridgemont High,
1982) é muito mais elucidativo sobre a ques-
tão do que qualquer campanha do Ministério
da Educação, por exemplo.
Enfim, todos esses conceitos são ques-
tionáveis. A juventude, assim como a in-
fância, são invenções modernas. A partir
do momento que nomeamos algo, esse algo
passa a existir. O cinema também é uma in-
venção moderna, logo, ainda temos um lon-
go caminho a percorrer.
Para não deixar dúvidas, assumimos que
“filmes jovens” são esses filmes que tratam
de questões da juventude. Obviamente, es-
ses filmes são protagonizados por jovens, e
não por adultos e velhos falando com saudo-
sismo da sua juventude. Filmes saudosistas
pertencem a outro nicho, bastante diferente.
SOM E FÚRIA
De Bruit et de Fureur (1988), é um filme
francês dirigido por Jean-Claude Brisseau e
lançado nos cinemas em 1988. Sem título
oficial no Brasil, já foi exibido por aqui com
o título De Barulho e de Fúria e como Som
e Fúria. Este último é o que usamos aqui.
No festival de Cannes do mesmo ano,
ganhou o “prêmio especial da juventude”.
Podemos acreditar que tenha sido um filme
escolhido por um “júri jovem” tanto quanto
foi um filme que impactou por seu agressivo
retrato da juventude daqueles anos.
Som e Fúria é o segundo longa-metragem
de Brisseau, que em 1983 havia lançado Um
Jogo Brutal (Un Jeau Brutal). Até os dias de
hoje, o diretor continua produzindo seus fil-
mes, mas com certa inconstância. Este fato
também confirma sua posição como uma
espécie de artista “maldito”, por sua radicali-
dade estética, a sua difícil catalogação e, con-
sequentemente, as suas dificuldades de produ-
ção. Ele não é um cineasta que facilita para
o circuito de cinema de arte e muito menos
para o circuito comercial. Brisseau é herdeiro
tanto dos textos clássicos (teatro e literatura)
quanto do cinema moderno francês da década
de 1960 – da nouvelle vague e Éric Rohmer,
principalmente. Brisseau une uma abordagem
estética realista do cinema (Rohmer) com re-
ferências clássicas do teatro (Shakespeare),
da literatura (Victor Hugo) e ainda digressões
metafísicas (cosmologia, Kant) e sexuais.
Portanto, não há uma tendência fácil em que
ele possa ser inscrito hoje.
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