Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 39
O filme se mostra notável também por
colocar em cena diversas ações que em ou-
tras obras seriam camufladas para preservar
os atores e o espectador. O personagem de
Jean-Roger, o amigo, é quem capitaneia es-
sas sequências radicais, como quando ateia
foco em tapetes, acende e arremessa co-
quetéis molotovs. Em qualquer espécie de
registro, é chocante associar as figuras da
infância com tamanha rebeldia e violência.
E Brisseau trata de encenar isso em planos
únicos sempre que possível – pois, como
ensinou André Bazin, o espectador sente a
genuinidade dos fatos quando apresentados
sem trucagens (“o ator realmente fez isso!”).
Ao mesmo tempo, Brisseau ressalta esses
fascínios humanos que são ainda mais latentes
na juventude – o fogo, a violência, a rebeldia
e o sexo. Se nós adultos lutamos diariamente
para conciliarmos essas obsessões e vivermos
em harmonia social, o que dizer de jovens
desprovidos de maiores preocupações cole-
tivas? Jean-Roger é o símbolo do niilismo e
da impulsividade. Seu personagem é dos mais
explosivos e sinceros da história do cinema.
O grande pecado de Jean-Roger, enfim,
é o seu ciúme. Ciúme do irmão mais velho,
que tem o carinho do pai e uma bela namo-
rada, e ciúme de Bruno, que é bondoso e
recebe a atenção da professora dedicada. A
mediocridade imperante no lugar o impele a
destruir tudo aquilo que não tem. Não mata
a professora nem a namorada do irmão, mas
fuzila seu pai e o pássaro de Bruno. Poderia
ser um sinal de sua autonomia, mas é sim-
plesmente um gesto de inveja e rancor.
A FICÇÃO
A ficção é mais eloquente do que a reali-
dade. Brisseau assume esta máxima, parte do
seu registro realista sobre fatos socialmente
aceitos e lança mão de uma narrativa que
nada mais é que fantasiosa.
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No quarto de Jean-Roger há pôsteres de
Charles Bronson, Sylvester Stallone e Harri-
son Ford como Indiana Jones. Brisseau não
economiza nas referências ao teatro e à li-
teratura clássicos, de Shakespeare a Jacques
Prévert. Apesar de nos mostrar um ambiente
inicialmente real (aquele ambiente existe,
sabemos), rapidamente somos transferidos
ao campo da ficção, onde o absurdo e o im-
provável podem ser aceitos.
Bruno Cremer, que interpreta o pai de
Jean-Roger, personifica o gesto ficcional. Ele é
um sujeito corpulento e agressivo, que pratica
tiro ao alvo dentro da própria casa. Tal compor-
tamento seria questionado como “inverossímil”
em filmes de Hollywood. Mas, aqui, tratado
com seriedade em uma encenação realista, é
aceito, mesmo que visto como “excêntrico”.
Cremer atua como os grandes atores da
Hollywood clássica, se mostrando uma reen-
carnação de Robert Mitchum ou Humphrey
Bogart. Seus modos parecem grosseiros e
seu corpo derruba tudo que encontra pela
frente, mas seu carisma é igualmente de-
vastador. O ator revela grande inteligência e
sensibilidade em conferir tanto poder físico
quanto emocional ao seu personagem.
Som e Fúria não só não se conforma
ao registro de não intervenção, como tem
ambições muito maiores. É uma obra de
grandes pretensões, que não teme dar passos
enormes. Com segurança, atira para diversos
lados, acerta alguns alvos, erra outros, e der-
ruba o espectador, assim como estremece os
alicerces de diversas instituições sociais.
“Não podemos expulsá-lo, porque a
educação é obrigatória até os 16 anos. Infe-
lizmente, não sou eu quem faz as leis”, se
lamenta o diretor da escola, horrorizado com
o comportamento de Jean-Roger.
O outro lado da moeda, o pai do aluno
problemático, decreta, com uma enorme fai-
xa, “morte à assistente social!”.
Som e Fúria é uma obra de ficção. Qual-
quer semelhança com a realidade é mera
coincidência.