Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 31
escura e a música do Monteverdi, novamen-
te, há algo, um valor espiritual, talvez epifâ-
nico, que não habita o plano que a câmera de
Bresson pode captar, por isso a suspensão.
Se no final de Mouchette as imagens dão
lugar apenas à música e à criação do expecta-
dor, no desfecho de O Diabo, Provavelmente
a imagem permanece, não é um abandono da
fé ou da esperança, mas sim, como o próprio
Bresson sugeriu, uma ênfase no desespero e
desordem como atestado de lucidez. Por isso
a permanência da imagem e a ausência qua-
se completa de música no filme inteiro. Há
apenas dois momentos em que ela se faz pre-
sente. O primeiro, na qual Charles e Valen-
tin dormem na igreja ouvindo Monteverdi,
o som da música tem de embater-se com o
das moedas que Valentin rouba. O segundo,
quando Charles já se encaminha para o sui-
cídio/assassinato no cemitério, há uma bre-
ve distração quando ele interrompe a cami-
nhada para ouvir alguns acordes de Mozart
vindos de uma televisão de uma casa. Essa
breve distração também ocorre a Mouchette
quando ela tenta chamar a atenção de um tra-
tor que passava por perto pouco antes de se
atirar na lagoa onde morrerá.
Em 1950 Bresson declarou em entrevis-
ta alguns de seus filmes favoritos, entre eles
Ladrões de Bicicleta e Encouraçado Potem-
kim. É significativo notar a presença destes
dois filmes inspiradores de sua estética e de
sua maneira de tratar aqueles que habitam
suas obras. A admiração por Potemkim de-
nota então apreço pela concepção de cinema
e montagem de Eisenstein segundo o qual
estes são fundamentalmente conflito, em
seus filmes a justaposição imagens distintas
cria um novo significado na mente do espec-
tador. Bresson utiliza deste tipo de artifício
em ambos os filmes, dando também ênfase
ao som, ao fazer surgir novas concepções so-
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bre seus jovens em cenas como o massacre
das lebres em Mouchette e na morte do bebê
foca em O Diabo, Provavelmente.
Mouchette, jovem de uma vila do inte-
rior, ao final da película havia acabado de ser
conduzida para a morte através do encontro
com três mulheres, “moiras” do destino, que
surgem no seu caminho, assim como o prota-
gonista de Ladrões de Bicicleta (Ladri di Bi-
ciclette, 1948), de Vittorio De Sica, encontra
as mais ásperas reações frente ao seu deses-
pero. Presencia logo depois um massacre de
lebres por caçadores na floresta, essa visão
será o desencanto decisivo para sua decisão
final pelo suicídio. Parafraseando o que Ba-
zin de Diário de um Pároco: “...sua estili-
zação não é a abstração a priori do símbolo,
ela se constrói numa dialética do concreto e
do abstrato pela ação recíproca de elementos
contraditórios da imagem.”, sua juventude
parece ser caçada e morta como as lebres.
No caso de O Diabo, um vídeo mostran-
do problemas ambientais do planeta sendo
analisado por Michel, um dos protagonistas,
encerra-se com a morte brutal de um bebê
foca a pauladas de um caçador para logo em
seguida transcorrer a cena onde Michel auxi-
lia Alberte a sair da casa dos pais.
A opressão sofrida pelos personagens jo-
vens nesse conflito de gerações se expressa
também nas atitudes dos adultos, sempre mo-
tivados por interesses mesquinhos. O estupro
de Mouchette e as fotos constrangedoras para
as quais o livreiro faz Ediwige posar em O
Diabo enfatizam essa desarmonia implícita.
Também ocorre de agressões físicas in-
terromperem momentos de suspensão dos
protagonistas. Qualquer que fosse a inten-
ção de Charles ao dormir na igreja ouvindo
Monteverdi no toca-vinil, ela é interrompida
brutalmente pela chegada de policiais que
o agridem na delegacia. No caso de Mou-
chette, seu curto vislumbre de algo melhor
do que sua condição, uma brincadeira em