Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 30
Esse agravamento da obscuridade (de
maneira alguma se pode dizer que seus fil-
mes anteriores não são obscuros também), a
qual Semolué se refere, parece intimamente
ligado à situação do próprio autor. Seriam
então os jovens os tipos ideais para encar-
nar os dramas que Bresson abordará com sua
arte? Mais, na fase tardia da carreira, pode-
-se dizer que o encurralamento dos persona-
gens seria uma extensão do encurralamento
do próprio Bresson em relação à recepção
do cinematógrafo? Afinal, acusações de que
seus filmes (e, portanto, a proposta do cine-
matógrafo) seriam frustrantes para o espec-
tador eram comuns.
Sendo o cinema de Bresson essencial-
mente objetivado a expressões da alma e
sendo para ele as almas jovens as mais flexí-
veis e misteriosas, nada mais apropriado que
sejam essas as escolhidas por ele para encar-
nar as dores do mundo hostil onde o motivo
para acreditar na graça está justamente na
sua ausência em tudo o que os cerca.
Notemos que os problemas dos jovens
aplicados aos filmes já foram notados há
tempos, como mostra o diretor alemão Rei-
ner Fassbinder:
“É certamente um filme de um homem
velho, mas não se pode contestar a extraor-
dinária juventude do filme. Pois será que o
filme glorifica o suicídio, ou o aceita, ou será
que se dá o contrário, como penso eu – ou
seja, que Bresson diz: ‘Aceitar a ideia da
morte é, sobretudo, dar-se mais oportunida-
de de viver a própria vida?’ É extraordinaria-
mente belo, seja apenas do ponto de vista for-
mal, ver alguém tão velho, e cujo Lancelot do
Lago (Lancelot Du Lac, 1974) já constituía o
remate de toda uma obra, fazer com O Diabo,
Provavelmente um filme que justamente não
é uma ‘obra de velhice’. Pois não se trata de
uma obra de velhice, mas de um filme cheio
de juventude” (FASSBINDER, 1977).
AO LADO: NADINE NORTIER EM MOUCHETTE (1967)
“Os protagonistas (no sentido real da pala-
vra: são os primeiros personagens e arcam com
um combate) dos primeiros filmes são adultos;
os principais personagens dos filmes seguintes
são adolescentes ou pessoas jovens, muito mais
vulneráveis...” (SÉMOLUÉ, 2011).
Mouchette (utilizarei aqui o título orini-
nal no lugar da escabrosa tradução brasi-
leira: A Virgem Possuída, 1967) e O Diabo,
Provavelmente, talvez seus filmes mais apu-
rados em aproximar-se de jovens, explorar
suas magoas e ainda assim, quem sabe, mos-
trar a beleza de dessas pessoas.
De nada será útil esta análise se não fi-
zermos o mesmo que os filmes fazem, apro-
ximarmo-nos dos personagens principais. A
jovem que dá nome ao filme e o desiludido
Charles de O Diabo, Provavelmente.
Relacionando o filme Diário de um Pá-
roco de Aldeia ao texto homônimo de Ber-
nanos que lhe deu origem, Bazin comenta
sobre o encerramento do filme:
“Assim, relação da imagem e do texto
progride no final em prol deste último, e com
muita naturalidade, sob a exigência de uma
lógica imperiosa que, nos últimos segundos,
a imagem se retira da tela. Ao ponto em que
Bresson chegou, a imagem não pode dizer
mais sobre isso se não desaparecendo. O es-
pectador é progressivamente conduzido a essa
noite dos sentidos cuja única expressão pos-
sível é a luz na tela branca.” (BAZIN, 1991).
Mouchette também é uma adaptação
do escritor francês Georges Bernanos, feita
mais de uma década de distância em relação
a Diário de um Pároco de Aldeia, e possui
em seu desfecho uma relação com a adapta-
ção anterior. Aqui, após todos os martírios
que o afetam e resultam em seu suicídio,
Bresson dá um passo adiante de Diário de
um Pároco de Aldeia. Não é mais o texto
do romance o que ouvimos e nem mesmo a
sombra de uma cruz projetada em uma su-
perfície branca mas uma tela completamente
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