Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 32
um carrinho de bate-bate em um parque
onde troca olhares com um garoto, atinge
um comovente momento de suspensão que
Bresson dificilmente via neste mundo, uma
amostra da graça que ela somente conseguirá
por completo após a morte, talvez a mesma
sensação do Padre de Diário de um Pároco
de um Padre ao andar de moto. A persona-
gem tem um momento despreocupado, leve,
ingênuo. Uma música alegre domina o am-
biente, porém, não se deve entender que a
parcimônia de Bresson no uso de música faz
uma concessão, mas sim que este assimila e
dá vazão a um estado de espírito. É também
aí que Mouchette percebe uma possibilida-
de inédita ao trocar olhares com um garoto,
companheirismo. Praticamente todas as suas
relações com os mais velhos são pautadas em
subordinação e mesmo com as jovens de sua
idade há rejeição e indiferença, rejeição essa
que a encenação e decupagem reverberam ao
isolar a garota das demais e fazê-la sempre
ser a última a entrar nos ambientes da escola,
mesmo no plano sonoro há exclusão, ela é re-
preendia por não conseguir cantar como as co-
legas. Sua relação com suas colegas consiste
apenas em lançar-lhes lama na saída. Todavia,
este vislumbre no parque é rudemente supri-
mido quando ela leva bofetadas do pai instan-
tes antes de conseguir falar com o garoto.
O engenhoso trabalho de Bresson com o
som de seus filmes corrobora tanto quanto
as imagens para as atmosferas lúgubres que
lhes são inerentes. As buzinas enfurecidas da
cena do ônibus ou as árvores caindo após se-
rem serradas (o que leva Charles a se retrair
e proteger os ouvidos) de O Diabo e as ri-
sadas cínicas das colegas de classe de Mou-
chette talvez machuquem os protagonistas
tanto quanto as agressões físicas.
Ainda no que toca ao companheirismo
como possível saída para os martírios do
mundo, essa parece ser uma das razões da
derrocada de Mouchette. Sua mãe, única
pessoa com quem mantinha um relaciona-
mento harmonioso morre e a deixa sozinha.
Charles em O Diabo parece desdenhar de
suas amizades ou mesmo desacreditar que
estas sejam capazes de mudar algo de sua
condição. No final, apenas aceita a ajuda de
alguém para morrer, e se trata de um auxílio
pago, pois Valentin, amigo drogado de Char-
les, faz questão de reivindicar sua recompen-
sa mesmo que isso signifique tirá-la do cadá-
ver do amigo. Uma alternativa é encontrada
por Alberte e Michel em seu abraço fraterno
numa de suas últimas aparições no filme.
Este abraço pela qual ambos tentam fazer as
decepções e sofrimentos uns dos outros mais
suportáveis se assemelha em comoção ao
aperto de mão de pai e filho de Ladrões de
Bicicleta, para eles não há esperança senão
um no outro.
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