Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 25
disso e rir de si mesmo por pensar que fos-
se tão importante”. Porém, Jim é mais justo
em seu idealismo vivo que seus pais em seu
pragmatismo decadente. A angústia de Jim
vem da necessidade de impor uma moral
viva, nova e corajosa, à moral fraca, des-
gastada e medrosa de seus pais, que tão na-
turalmente ameaça sua própria. Pois a vida
para Jim não é algo a ser vivido com paixão
e intensidade, do melhor modo possível (aí
o idealismo, aí a rebelião) e, para seus pais,
talvez por falta de força ou fraqueza de es-
pírito, algo a ser vivido com pragmatismo,
cansaço e egoísmo, o que é decepcionante?
Esquecer-se de como era ser adolescente às
vezes é o mesmo que se esquecer de viver.
Em suma, a fórmula de Allison de O Clube
dos Cinco: “É inevitável (ficar parecido com
os pais). Quando você cresce, seu coração
morre”. Isso está totalmente posto em A Um
Passo do Abismo. O pai de Carl se esqueceu
de viver, todo enrolado na venda de cadillacs
e no embrulho econômico de Nova Grana-
da. Do equívoco e do amor imanente do pai,
porém não mais percebido pelo filho, vem
a opressão e as intensas tomadas, cada vez
piores, de Carl largando-se na cama, esgo-
tado, numa revolta muda e cada vez mais
incontinente que só pode se acalmar com a
música, a amizade, o amor e a rebelião.
SOLIDÃO
“What does he know about, man alone?”
- Plato em Juventude Transviada.
“Creio que algo que me falta completa-
mente é conhecer a solidão, e mesmo sofrer
com ela.” - Louise em Noites de Lua Cheia
(Les Nuits de la Pleine Lune, 1984), de E.
Rohmer)
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Os esforços de Andrea em sistematizar
os procedimentos amorosos e encontrar o
amor ideal nada mais são que uma negação
da solidão. Gostaria de construir uma grande
coleção de representações da solidão na ado-
lescência. Por onde começar?
Watts em Alguém Muito Especial (Some
Kind of Wonderful, 1987) de Howard Deut-
ch: “The only things I care about in this go-
ddamn life are me and my drums, and you.”
A solidão é talvez um dos temas intrín-
secos aos filmes de Robert Bresson. Char-
les em O Diabo, Provavelmente (Le Diable
Probablement, 1977) possui a angústia da
lucidez no mundo terrível da humanidade, e
uma angústia mais obscura, de onde provém
seu afastamento dos outros, mesmo dos ami-
gos e amantes. Falta de esperança e confu-
são? O contraponto é Michel.
O desejo de fazer amigos de Jim na mais
nova das tantas vizinhanças em que já morou
é evidente em Juventude Transviada, bem
como a ligação apenas superficial de Judy
(Natalie Wood) com os colegas da gangue.
Porém, é com Plato (Sal Mineo) que temos a
representação mais densa da solidão no filme.
Há a apresentação de seu problema psi-
cológico na delegacia e de que, privado de
um relacionamento com os pais, é criado por
uma guardiã. Aqui, como as angústias dos ou-
tros dois protagonistas, a de Plato é atribuída à
ausência ou à incompreensão dos pais. Depois
de não aceitar o casaco de Jim, Plato o segue
como que inspirado por uma intuição; a fe-
licidade é óbvia em seu rosto quando conta,
quase uma mentira, que Jim é seu amigo, e o
convida para passar a noite em casa, a euforia
em fazer um amigo, quase como num sonho.
Depois, a felicidade que experimenta e expres-
sa, antes de cair no sono na casa abandonada.
Sua felicidade é tanto maior quanto é o choque
em acordar e encontrar não mais os compa-
nheiros, mas a gangue que persegue Jim, fato
que põe em ignição sua confusão psicológica