Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 24

citamos acima: “don’t ruin the phantasy, okay?”. Wyatt concorda, feliz. Em seguida, o choque com o constrangimento causado pelos valentões, as roupas furadas, o começo do filme e a criação de Lisa (Kelly LeBrock) que é o misto mágico de modelo, Albert Einstein e apresentador da MTV. Se Mulher Nota Mil é um filme menor, não é por estar longe das qualidades de O Clube dos Cinco, mas por ter intenções menores sem deixar de ser igualmente válido. É como se o filme fosse uma fantasia de um dos personagens geeks de Gatinhas e Gatões. Um filme pu- ramente adolescente, tramado numa mente adolescente num fluxo de imaginação obce- cado pelo sexo, que começa com a criação científico-mística da mulher nota mil, muito mais inteligente, sobrenaturalmente podero- sa e inteiramente devotada a nós mesmos. No entanto, esta é uma fantasia sincera e muito conscienciosa na criação das peripé- cias: Lisa coloca Wyatt e Gary nas situações em que sonhavam estar e, porém, os dois se comportam nelas do modo mais inseguro e desastrado possível, como seria na vida real (o que é uma fonte de comédia - Wyatt fica reduzido ao banheiro na tão sonhada festa) - até certo ponto, pois depois de um pouco de coragem e descontração os dois acabam por ficar completamente à vontade na situação: Gary vira, se embebedando no Kandy Bar, um frequentador do lugar mais frequentador que os frequentadores de verdade. Assim Lisa, pedagogicamente, ensina-os, passo a passo, sobre o amor e a vida até o final, quando atraem a atenção das garotas com quem tanto desejavam estar. Em suma, o de- vaneio de um adolescente inteligente, deitado no quarto sem fazer nada, à tarde, olhando as nuvens passando pela janela. O tema de A Paixão (La Cotta, 1967), de E. Olmi: o idealismo juvenil em confronto com a realidade do afeto, expressa no diá- logo do protagonista Andrea com a mulher mais velha, no carro. Idealismo imaturo ex- presso por Andrea em sua sistematização da cantada (“um conceito industrial aplicado ao amor”), em sua paixão por Janine, em sua fantasia representada no filme em fluxo de consciência após ser esquecido por Janine na noite de ano novo. Ao ir atrás dela com os taxistas, confuso, sem a encontrar, por en- tre a névoa, uma sucessão de imaginação (e memória) que explica, de diversos modos, o porquê dela o ter deixado, quando a resposta evidente, compreendida na última fantasia antes do fim da esperança, antes da raiva e da resignação abatida, é tão somente a indi- ferença de Janine. Tão logo o interesse de Andrea passa para a nova moça, a mulher mais velha que o recebe na festa onde Janine não está, e ela lhe mostra com palavras a realidade do amor. Andrea não escuta, imaginando no ônibus de volta como seria bom amá-la, e se recordan- do de Janine. O idealismo que consiste em acreditar que as fantasias são, mesmo que pouco prováveis, sempre possíveis. E a pue- rilidade em esperar que se realizem, e logo. Com a maturidade, o que a moça lhe disse Andrea perceberá, desta vez por si mesmo. O filme é todo um desenvolvimento so- bre a frase do garoto que Andrea encontrou na rua assoviando para a moça da janela: “Sono cose di ragazzi, pero possono avere la loro importanza” (São coisas de criança, mas podem ter sua importância). O que preocupa o adolescente pode parecer banal ao adulto, mas, banal ou não, é o que preocupa uma pessoa, e os adultos geralmente encontram novas banalidades com o que se ocupar, como tantas vezes demonstram os teen mo- vies e seus adultos equivocados. O pai de Jim lhe diz, em Juventude Transviada: “Jim- bo, só estou tentando lhe mostrar como você é tolo. Quando for mais velho, vai relembrar 23