Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 26
completa, ligada à associação dos companhei-
ros aos pais ausentes, à mistura de coisas dife-
rentes que mentalmente confunde, neste mo-
mento de confusão e perdição, confunde numa
única emoção, a da carência de amor. Tudo
se passa como se Jim e Judy fossem a primei-
ra amizade que Plato faz na vida. Delineia-se
assim, sem mostrar, nada menos que uma vida
inteira de solidão.
A solidão é ainda mais intrínseca à vida
quando significa também seus aspectos mais
interiores.
Hermie, em Verão de 42, possui dois
amigos na praia e pode namorar com relativa
facilidade. Sua paixão pela mulher da casa da
praia o puxa para o abismo onde a felicidade
só é possível ao lado dela. Porém, o encontro
enfim entre os dois, que certamente é o contrá-
rio de um momento de solidão (conjunção), é
acompanhado pelo conhecimento repentino e
irreversível da vida, da felicidade e da infelici-
dade ao mesmo tempo, do aspecto mais terrível
e do mais extasiante da vida de uma única vez e
RENATA CARNIGLIA E LUCIANO PIERGIOVANNI
EM A PAIXÃO (1967)
sendo a mesma coisa (e esse momento só pode
ser grave). Depois de conhecer a vida assim, de
um golpe, Hermie se perdeu, “perdeu o menino
Hermie”, e a vida se torna um único ato solene,
intenso. Assim Hermie se agarra à cerca, como
para se sustentar com força, e observa o hori-
zonte, a casa, pois apenas posições sublimes
condizem agora com a verdade do mundo. O
que seu amigo diz não tem mais importância,
pois Hermie sentiu a morte e o êxtase, para-
doxalmente juntos no mesmo instante. De um
golpe a vida lhe mostrou seu ímpeto mais pro-
fundo, atribuindo-lhe da solidão que é a de não
estar mais no mundo como os outros, ou, nova-
mente, a solidão da lucidez.
Hermie cresceu. Crescer é uma perda e
um encontro de si mesmo. Não me lembro
de ter me perdido de uma vez só, num cho-
que, numa experiência brutal como a de Her-
mie. Não foi numa única noite, mas todos os
dias, e já perdi de vista o velho Dudu. Algo
nele se quebrou.