Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 22

A paixão não correspondida é, natural- mente, uma das fontes principais de angústia nos filmes sobre a adolescência. Quais são as outras? Há o conflito com os colegas, com o meio social. Jim, em Juventude Transviada, diz: “Nobody acts sincere”, centro temá- tico de O Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985), de John Hughes. Quando Claire (Molly Ringwald), sincera e covardemente, afirma que na segunda-feira voltará a igno- rar todos os quatro que conheceu de modo tão sincero, visto a pressão social, a lágrima de Brian (Anthony Michael Hall) concentra todo o sofrimento e humilhação daqueles que são postos para fora do jogo das aparências. Há o conflito de gerações. Em Juven- tude Transviada a angústia transborda em frêmitos de loucura e desespero. Jim (James Dean) não encontra um modelo para lhe guiar no pai submisso à mãe, ou compreen- são nos adultos que já não lhe parecem mais maduros e sábios como quando era criança (com a possível exceção do policial, cuja presença, no entanto, não é efetiva). Perdido no deserto da juventude, contra a mentira, o medo, a covardia e o conformismo dos pais, Jim prefere a moral íntima, baseada no idea- lismo e na coragem, na sinceridade e na ver- dade. Em A Um Passo do Abismo (Over the Edge, 1979), de Jonathan Kaplan, de modo semelhante, a delinquência juvenil e a rebe- lião são legítimas frente o embotamento e a hipocrisia dos pais. É a adolescência o momento privilegia- do na vida para a confusão, o desconforto, o choque? Onde está a representação de certa angústia adolescente, cujas causas não têm a ver (ao menos não diretamente) com os pais ou a descoberta do amor, a virgindade e a desilusão, nem com causas tão simples como tirar ou não a carteira de habilitação, como em Licença para Dirigir (License to Drive, 1988), de Greg Beeman? Certa angústia, di- luída na vida, que se expressa na dúvida, na confusão e no medo, que me acompanhou ao menos, na adolescência? O planetário em Juventude Transviada: o universo, tão vasto, nossa angústia, tão na- tural, tão desprezível, tão arrebatadora. A FELICIDADE “Stay Gold, Ponyboy” - Johnny em Vi- das sem Rumo. Há, no fim das contas, como sugere Gatinhas e Gatões, um momento feliz para cada momento infeliz? Os momentos de compreensão do mundo, felicidade por estar vivo, como o do poema de Robert Frost em Vidas sem Rumo (The Outsiders, 1983), de Francis Ford Coppola. Epifania? Neste filme, inclusive, há a presença mútua da tragédia e da esperança. Ou os instantes de suspen- são, quando nos esquecemos dos problemas para nos sentirmos plenos, apaziguados de outra forma, como a brincadeira na mansão abandonada em Juventude Transviada (sus- pensão titubeante da angústia). Acho que foi assistindo a O Sopro no Coração (Souffle au Coeur, 1971), de L. Malle, há alguns anos, que entendi essa receita de bem-estar instan- tâneo, que é ouvir música, seja jazz, blues, rock’n roll, se deixar mover pela música e pela dança. Nada mais comum em um teen movie que a ideia de escapar à realidade opressiva por meio dos fones de ouvido, como em A Um Passo do Abismo, ou ir mais além, estando sozinho, e dançar pra valer no quarto como em U.S. Go Home (1994), de C. Denis, ou dançar acompanhado como em O Clube dos Cinco, ao som de We Are Not Alone. A cena musical do Twist’n Shout de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986), de John Hughes é o ápice, a 21