Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 21

Sam não sabe como se dirigir a Jake e lhe parece que ensaiar uma maneira ideal de agir vai funcionar (uma frase escolhida com coragem, a imaturidade que consis- te em acreditar que é possível, no próximo momento, se nos esforçarmos, ser perante os outros a pessoa ideal que desejamos ser) – mesma situação com a puerilidade nervosa de Hermie em Verão de 42 (Summer of ‘42, 1971), de R. Mulligan. No entanto, no momento para o qual nos preparamos - Sam na frente de Jake para di- zer “Jake, você não vai acreditar, mas tive um sonho bizarro, e você estava nele” - a coragem vai embora nos deixando em pâ- nico com o constrangimento fulminante que nos assombrará sempre que dele nos lembrarmos. Essa encenação ideal, afeta- ção de naturalidade, mais bizarra ainda que o constrangimento, nunca daria na estima verdadeira que esperamos dos outros. Essa falta de coragem para realizá-la, será devido à nossa própria percepção inconsciente da verdade, nos sabotando em tais intenções? Ao contrário, podemos chegar a realizá-las, como Hermie em Verão de 42, e nem per- ceber o quanto estamos sendo ridículos, ou então nos atormentar com os escorregões, que, no entanto, passam despercebidos para os outros – “Hernia, jesus!”. Numa tomada, Samantha aproxima-se para falar com Jake, este se vira e, feliz por finalmente poder falar com Sam, sorri. Sam, sem voz, gira paralisada e segue em frente, se escondendo num canto, deixando Jake de- cepcionado. O mesmo tipo de divergência de compreensão ou mal-entendido numa única tomada em A Inocência do Primeiro Amor (Lucas, 1986), de David Seltzer: quando Maggie e Cappie estão sozinhos na lavande- ria. Maggie fala do vômito no sapato e gira, de costas para Cappie e de frente para a câ- mera, com uma expressão que diz: “Como posso ser tão burra? Falando de vômito no sapato para o cara que eu quero tanto que goste de mim” enquanto, em segundo plano, Cappie com uma expressão que diz: “Ela é incrível!”. Num quadro, o filme expressa o constrangimento de Maggie e, simultanea- mente, sua injustificabilidade, na admiração de Cappie. Numa única tomada, em ambos os casos, sínteses de constrangimento. O rea- lismo emocional é evidente. À noite, Sam não consegue dormir. Quando os momentos constrangedores e frustrantes passaram (mas ainda se fazem obsessivamente presentes), a infelicidade é refletida, consciente de si, uma espécie de tristeza apaziguada. Depois da conversa com o pai e da noite de sono, a luz da manhã do dia do casamento encontra Sam apenas tris- te, olhar descansado e ânimo para continuar após o desastre da noite anterior. É uma re- gra misteriosa da vida que o que se espera só acontece quando menos se espera? Quando Sam se ocupa somente do hilário e desastro- so casamento da irmã, sobrevém o final oti- mista do filme que o remata como apresen- tação da vida como sucessão de momentos felizes e infelizes (que se substituem diale- ticamente), e que as angústias dessa adoles- cência não são permanentes, ao contrário, devem ser constantemente ultrapassadas. * * Dessa adolescência, pois as formas que ela toma na vida são certamente tão diversas quanto são as pessoas no mundo. Quais são as semelhanças e diferenças entre a juventude de Toda a Família Trabalha (Hataraku ikka, 1939), de Mikio Naruse e a de Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, 1993), de Richard Linklater? Ou entre o crescimento do Apu de Satyajit Ray e do Jamie de Bill Douglas? A adolescência da qual tratamos aqui é, afinal, muito restrita, relacionada a um contexto social particular. 20