Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 113
Logo, a aderência ainda mais extrema ao
confinamento (quase todo o filme se passa
dentro de um apartamento, num prédio onde
todos os andares têm a mesma aparência e
nada pode ser visto do lado de fora) o trans-
forma no melhor exemplar da proficiência
em manipulação temporal e espacial de Hoo-
per, pois com a debilidade do texto, toda ca-
racterização, todo sentido é retirado disso. O
instante em que isso fica mais explícito vem
com a súbita mudança de protagonistas, já
na metade final, repentinamente carregando
o filme de fortes contrastes, transformando
toda a nossa percepção daquele reduzido
universo dependendo da perspectiva assumi-
da, da esposa ou do marido. A característica
inicialmente mais marcante na primeira par-
te, protagonizada pela esposa, certamente foi
o desequilíbrio acentuado de suas composi-
ções, o que é apenas destacado na maneira
como rompe o andamento tipicamente pa-
ciente e cauteloso de seus planos, uma forma
de conter o desenvolvimento das interações,
dos diálogos grosseiros, gradativamente
acumulando tensão que nunca é aliviada. A
montagem remete imediatamente ao que já
havia esboçado na série Mestres do Terror,
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principalmente em seu episódio mais bem-
-sucedido, Dança dos Mortos (Dance of the
Dead, 2005), mas ao contrário do que fez
naquele pequeno filme, o emprego do recur-
so não é objetivamente incômodo, as disrup-
ções são sintéticas, não há a quebra quase to-
tal com a elegância extraordinária de Hooper
em seu domínio da mise-en-scène, ele dá um
passo adiante, combina a tensão inquietan-
te que resulta dos cortes comprimidos e da
constante justaposição de planos dissonantes
com uma construção cênica mais próxima de
seus filmes anteriores, nada óbvia e direta,
muito dependente da capacidade de suges-
tão. Nesta parte, pouca coisa é explicitada,
e com o percorrer do filme, a ruptura do pa-
drão estabelecido é inevitável, mas ao invés
de trazer um momento de respiro, só ressalta
ainda mais o desconforto e o sofrimento.
Quase uma sequência ininterrupta, a pri-
meira visão inicia quando o casal chega no ho-
tel, e toda a área em que ocorrerá a ação é apre-
sentada pelo marido. Gradualmente, quando
são revisitados, ou quando o plano é estendido
por poucos segundos a mais, o espaço é estra-
nhado. O que segue são sons intrusos, enqua-
dramentos oblíquos, movimentos inusitados e