Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 112
Como em Fulci, o horror é demasiada-
mente físico, e não falo de desmembramen-
tos, mas sim de colocar tudo em evidência,
algo que está ligado diretamente ao que
realizava pelo menos desde os anos 90, com
a contenção espacial que ressaltava um as-
pecto teatral de sua encenação, baseada em
reconfigurações de posicionamento, em
movimentação rígida, repetitiva, confinada
a pequenas áreas, delimitando assim toda a
existência dos personagens. O efeito costu-
mava ser antipsicologizante, mais interes-
sado no sentido das ações do que em suas
motivações, mas em Djinn nossa atenção
é orientada quase completamente para as
reações de seus personagens, para gestos,
detalhes sutis nas performances, dando se-
quência àquilo que fez na primeira metade
de A Mansão Marsten (Salem’s Lot, 1979),
com sua fragmentação em diversos blocos
narrativos que revelavam discretamente a
corrupção da cidade pela presença maldita
através do estranhamento do comportamen-
to dos habitantes, o horror surgia do cotidia-
no antes de ser encarnado pelo vampiro, era
encoberto por uma normalidade superficial.
O drama familiar no centro de Djinn caberia
muito bem como uma das digressões do en-
redo daquela minissérie.
Djinn também é, por consequência, o
filme mais humano de Hooper. O fato de
consistir quase exclusivamente em “pessoas
andando por corredores”, assim como Noites
de Terror, faz a divergência em seu trata-
mento ainda mais perceptível: ele abandona
seu estilo calculado, sóbrio, funcional, estru-
turalmente rígido, com rupturas perfeitamen-
te pontuadas, a artificialidade de algumas re-
presentações, intencionalmente caricaturais,
e sua tendência ao intelectualismo (basta
notar a diferença em relação à montagem de
Pague Para Entrar, Reze Para Sair ou Pol-
tergeist), aqui a câmera está constantemente
imersa na perspectiva dos personagens, ele
nega o conflito entre aquilo que o quadro
nos informa e o que expressa a performance
do ator, o que antes era abundante, o foco
está apenas em elucidar o que eles sentem,
qualquer tipo de distância do material seria
inconsistente com sua proposta, que agora
mostra um lado mais afetivo, indo muito
além de suas típicas ambições pseudoex-
pressionistas que traziam breves momentos
de exposição emocional, em Djinn a forma
deve tornar-se abstrata, crua, primitiva, pois
a regra é a frontalidade ao tratar de emoções
complexas.