Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 111

110 Noites de Terror é, ao todo, um confli- to entre a sujeição ao exercício eficiente de cinema vulgar e a possibilidade de elaborar, pelo menos parcialmente, uma resolução para preceitos formais e temáticos que come- çou a esboçar décadas antes, e nesse aspecto o roteiro demonstra ser ideal: a artificialida- de do prédio permite que o diretor dedique a maior porção do filme a pessoas andando por corredores, a espaços vazios, criando tensão somente na sugestão do extracampo, também com seu trabalho habitualmente primoroso de som, sempre revelando novas arestas ao explorar os limites do quadro, en- fim, toda a maestria de Hooper, quanto mais o ambiente é estudado, mais misterioso e enigmático ele parece, é quando demonstra ser o maior herdeiro de Jacques Tourneur. na sua recepção até agora com a passagem por poucos festivais. É um alvo fácil e é evi- dente que tais críticos não fizeram o menor esforço para olhar além de sua categorização como subproduto genérico, da pobreza de sua premissa, de sua produção conturbada, et cetera. Hooper está totalmente consciente dessas restrições e tira o maior proveito pos- sível delas, afinal é um dos raros filmes que vi nos últimos anos onde há um empenho verdadeiro na experimentação com a forma e que simultaneamente tenta livrar-se de todo excesso, tomando o molde do filme B como um longo processo de desnudamento do pró- prio cinema, de revitalização pela descoberta daquilo que lhe é essencial (semelhante ao que outros grandes autores fizeram em 2014, como Abel Ferrara e Kiyoshi Kurosawa). Finalmente chegamos em Djinn (2014), que novamente marca o retorno do diretor após um longo hiato (involuntário) que du- rou oito anos, depois de outra breve passa- gem pela televisão com os dois filmes da série Mestres do Terror (onde, ao menos, teve liberdade criativa). Para melhor ou para pior, assim como Tourneur, o cineasta assume sua posição como metteur en scène contratado para atender os requisitos de um projeto alheio, enfim aceitando desenvolver um discurso pessoal dentro das demandas dos produtores ou do roteiro, de certo modo, é um contraponto a Noites de Terror, sua abordagem já não faz mais a distinção en- tre aquilo que é determinado por exigências populistas triviais (os clichês) e sua visão particular. Portanto, quando ganhar uma distribuição apropriada, devido à preguiça intelectual generalizada dos críticos contem- porâneos, é provável que Djinn seja pronta- mente rejeitado (talvez destruído ou ridicu- larizado sejam termos melhores), como foi Hooper entende a mediocridade do rotei- ro, sabe que todas as suas ideias acabam sub- desenvolvidas, mas é justamente a ausência de profundidade e a simplicidade da história que permitem as conquistas do diretor através da encenação, interpretando o enredo como um conceito geral para ser reformulado de acordo com as diversas nuances que encontra, por isso a necessidade do minimalismo es- trutural, a persistência em repetições, porém não se estendendo ao movimento interno das cenas, sempre meticulosamente detalhado. Não é difícil relacionar o que Hooper faz aqui com a abordagem de Lucio Fulci do horror, sobretudo a partir dos anos 80, partindo de premissas muito próximas, que beiravam a inanidade, abstraindo ao máximo seus temas, tentando transcender a narrativa e ir direto os códigos básicos do gênero, depurá-lo ao ponto de expor somente seus elementos primários. Tudo o que era descrição, todo conceito que não pudesse ser transfigurado em forma, de- veria desaparecer.