Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 110

EM 2004, Tobe Hooper retornava ao cinema após passar quase uma década rele- gado ao trabalho ingrato de artesão em séries televisivas e dois longas que tiveram produ- ções similares, onde exercia pouco controle sobre o material. Ainda que não devam ser totalmente ignoradas, nenhuma apresentava qualquer tipo de progresso significante em sua carreira, e mesmo quando seus próprios interesses se aproximavam das exigências do roteiro, como em Apartamento 17 (The Apartment Complex, 1998), o resultado não superava a redundância se colocado ao lado das obras-primas que realizou nos anos 90, como Combustão Espontânea (Spontaneous Combustion, 1990) e Mangler: O Grito de Terror (The Mangler, 1995), filmes formal- mente anômalos que explicitavam ainda mais o caráter retrógrado do projeto de Hoo- per e sua deliberada falta de comunicação com todo o cinema contemporâneo. Não se adaptando bem às imposições criativas do meio, à crescente aderência a toda sorte de tendência forçada por necessidades merca- dológicas, é apenas lógico que essa fase de estagnação levaria o diretor a Noites de Ter- ror (Toolbox Murders, 2004), consequên- cia de profunda autorreflexão, e Mortuária (Mortuary, 2005), que inevitavelmente o ar- rastou para o terreno da autoparódia, sobre- carregado pela obscenidade ontológica dos filmes de gênero de sua época (possuindo, contudo, vários méritos). Noites de Terror, nominalmente a refil- magem de um slasher de 1978, restituiu o poder do diretor sobre o seu trabalho nesse período oportuno. É uma inversão da estru- tura fundamental de Pague para entrar, reze para sair (The Funhouse, 1981): o universo superficial, onde habitam os personagens, deixa de ser dominado pelas representações vulgarizadas do horror e (naquele caso) dos problemas centrais dos teen movies (que eram, no fim, balanceados – a descoberta do horror e da morte seguia a descoberta da sexualidade e da perversão), e essas conven- ções ou fantasias concebidas para dissimu- lar o horror se perdem como memórias nas ruínas daquele espaço, um hotel decadente em Hollywood (obviamente), que é habitado principalmente por atores desocupados. Ain- da há a distinção realçada entre o ambiente maldito contido na bilocação e aquele onde vive a protagonista, mas seu ponto de virada é o oposto: a protagonista não entra no espa- ço onde vive o monstro para enfrentar o mal que existe por trás dos disfarces (na funhou- se, o assassino escondia sua face deformada com uma máscara do monstro de Frankens- tein), pois é esse universo alternativo, assim como o lar ou o parque de diversões em Pa- gue para entrar, reze para sair, que é sub- jugado às fórmulas do gênero, aos clichês, é o que limita o filme aos procedimentos padrões do slasher e suas propriedades mais desprezíveis, como a violência gráfica des- comedida que Hooper sempre resistiu filmar (e quando fazia, tomava a distância adequa- da, ressaltando sua gratuidade).