Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 114

modulações de luz e cor nas lacunas que suas composições salientam, sempre insinuando a presença de algo que não se revela, que não age. Com o isolamento da protagonista, os cortes abruptos dão lugar à dilatação tempo- ral cuidadosa, até culminar no instante que divide o filme e que abandona sua rigorosa fragmentação, um plano-sequência de sua reação desesperada, rezando para livrar-se do espírito, no plano dramaticamente mais elaborado de todo o filme, ao término do qual sucede seu único diálogo frontal, logo após a personagem desmoronar emocionalmente, um plano-contraplano preenchido pelo vazio opressivo do apartamento que ainda conse- gue manter toda a expressividade da atriz, mesmo com o corpo atenuado pelo quadro, num confronto com o passado, um processo de “desnudamento”, também formal, como mencionei antes. A partir desse ponto, desaparecem os breves indícios do locus maldito ao qual nunca temos acesso (por exemplo, quando observamos a mulher através de um espaço desconhecido, indicado pela emolduração das decorações nas paredes), Hooper nega a sua materialização tradicional da bilocação, das divisões claras que restringiam a mani- festação do mal pela necessidade de uma interseção (até em Poltergeist, com o qual possui mais semelhanças). Em Djinn, o mal finalmente invade todo o campo, e suas víti- mas são condenadas, desde o início, a residir neste espaço. Na segunda metade vemos o desfecho desse choque, decompondo a ló- gica estabelecida anteriormente, tornando o tempo elíptico, as repetições ainda mais constantes (de situações, de vozes e ima- gens recorrentes que determinam as ações), a luz e o branco onipresentes do apartamento são substituídos por cores quentes e som- bras profusas, as lacunas viram abismos, é a desintegração completa das definições do local, lembrando os melhores dias de Dario Argento. Só essa seção já deveria garantir que Djinn fosse colocado entre os raros filmes de terror contemporâneos realmente necessários, que trazem à memória a época dourada do gê- nero, mas são ainda capazes de expor novas proposições estéticas, tomando riscos, exce- dendo artifícios e efeitos baratos. Aliás, uma sequência que consiste apenas nisso (com a narração explanatória para a origem da mal- dição seguida de uma previsível perseguição, inspirada nos slasher movies mais banais, na única cena com um turista americano, é claro) só denota sua rejeição a mecanismos fáceis de sensações imediatas no restante do filme, como na cena em que o fantasma de um fami- liar retorna ao apartamento, onde utiliza um recurso típico para criação de suspense, mos- trando ao público algo que o personagem não sabe, mas contraria seu objetivo usual, não é um meio para forjar o susto, o seu desenrolar faz o espectador consciente da tragédia para além daquilo que pode ser sintetizado por nar- ração expositiva ou flashbacks, descrições va- gas, até falsas, do horror que é posteriormente presenciado (a sequência citada conclui num close de Razane Jammal se despedindo da fa- mília, nada poderia estar mais distante de um truque genérico e desonesto). Em suma, uma anomalia, o resultado de um projeto nada sofisticado, com ambições modestas e que possui todos os problemas reportados de sua pós-produção evidentes no corte final (o grafismo excessivo da última cena não ajuda a disfarçar a interferência do estúdio), mas a realização rigorosa e precisa de Hooper, como não via desde Eggshells (1969) e O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), o trans- forma em uma de suas melhores obras, e sua ligeira irregularidade que só dá maior proemi- nência aos múltiplos momentos de grandeza. 113