Hatari! Revista de Cinema #04 Cinema Brasileiro Anos 80 | Página 60
lutador de boxe, na cidade de São Paulo, que entra no cinema e conhe-
ce uma mulher misteriosa e sedutora, Suzana. Enquanto ele vê Suzana
sentar em uma das poltronas, acompanhada pelo lanterninha, uma mu-
lher muito parecida com ela, idêntica, confabula com seu amante na tela
do Cine Shanghai. A principio a semelhança entre essa mulher e a atriz
Laila Van não é importante e Lucas passa noites esperando Suzana no
restaurante Chuang Tzu, onde ela disse que o encontraria. Em uma dessas
noites, Lucas se mete, sem querer, em negócios da máfi a. Ele é acusado
de assassinato e a identidade de Suzana parece uma pista direta para o
verdadeiro culpado.
O mundo de A Dama do Cine Shanghai é uma São Paulo artifi cial ilu-
minada por letreiros em neon. Dividem com ele essa ambiência mais dois
fi lmes da década de 80, Cidade Oculta (Francisco Botelho, 1986) e Anjos
da Noite (Wilson Barros, 1987), formando a Trilogia da Noite Paulistana
na vertente estilística do Neon-Realismo. Esse lugar de Cidade Oculta,
de Anjos da Noite e de A Dama do Cine Shanghai é habitado por pessoas
que parecem voltar à vida a cada noite e morrer durante o dia assim como
um fi lme que revive sempre que rodado e morre no fi m dos seus créditos.
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Em todas as sessões do cinema, a doppleganger de Suzana, no fi lme
dentro do fi lme, arquiteta a morte de seu marido e convence seu amante
a cometer o assassinato por ela. Sua imagem dupla é um disfarce, ela usa
uma mascara de si mesma, um refl exo, assim como a femme fatale de
Rita Hayworth mostra, na sala de espelhos, suas várias faces escondidas,
uma dentro da outra. Alguém com tantas imagens, tantos refl exos não
pode ser confi ável. Seus duplos emoldurados são lembranças satíricas da
mulher real.
A Suzana, “em carne”, repete a história projetada, uma criatura que