Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Página 135

Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo
inevitável. Era precisamente o fruto que o presente carregava no ventre, cuja parteira seria a política revolucionária.
A dialética histórica, ainda que contraditória, tinha em si uma característica linear, progressiva, rumo a um futuro emancipado, no qual as relações sociais estariam livres da sujeição capitalista e o poder dos homens se recolocaria sob seu controle. Como consequência, a superação do capitalismo não era tanto questão de direitos ou de justiça e menos ainda de caridade, mas de luta de classes, de formas de produção e de relações sociais de produção.
A contradição entre a natureza do fim e a dos meios, entre fraternidade e revolução, constitui o paradoxo mais obscuro da teoria marxista, o que – observa Jacques Rancière – transformará o entusiasmo do comunista no desespero do revolucionário. Daquela nobreza da humanidade que já brilha em suas frontes, os revolucionários haverão de perder até a aparência para produzir a nobreza da humanidade futura. 56
Se o humanismo pode se definir em geral como uma tendência que se baseia no amor ao próximo, a força de atração do socialismo – afirma Adam Schaff – é seu humanismo:“ O humanismo socialista não é um fenômeno novo em sentido absoluto. Ao contrário, tem longa história e, em certo sentido, é muito antigo, tanto quanto o horror dos homens diante da desgraça alheia, o protesto contra o sofrimento de oprimidos, humilhados, explorados, o amor ao próximo e os ideais de felicidade e igualdade que a ele se ligam”. 57 Portanto, pode-se dizer que o socialismo se identifica“ com o amor ao próximo”, mas como doutrina de luta – teoriza Schaff – comporta também o ódio ao inimigo em nome do amor ao próximo.
56 J. Rancière, Le philosophe et ses pauvres, Paris, Fayard, 1983. 57 A. Schaff, La questione dell’ umanesimo marxista, Bari, Dedalo, 1978, p. 113-114.
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