Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 136

Maria Rosaria Manieri De fato, a fraternidade socialista é militante, não se limita a enunciar o princípio mas exige que se lute para que ele se realize e, assim, “nos ensina não só a amar os homens, mas também a odiar os inimigos do humanismo”. Segundo Schaff, não há nisto nenhuma contradição e, sim, uma atitude coerente: “Em nome do amor ao próximo, pode-se e deve-se odiar quem contra ele luta, assim como em nome da fraternidade dos homens é lícito e obrigatório combater seus inimigos”. 58 Aí, no entanto, reside uma contradição real – para John Dunn – com perigosos desdobramentos políticos, uma contra- dição que permite acolher na teoria do Estado pós-revolucio- nário ambos os legados contraditórios da Revolução Francesa, a democracia solidarista e participativa dos sans-culottes pari- sienses e as funções repressivas e executivas da ditadura jaco- bina. 59 Uma contradição na qual devem ser buscadas as razões do malogro das revoluções marxistas, e não só no fato de que elas eclodiram no lugar errado ou no momento errado. Exibir “o esplendor moral da meta prometida para justificar o que na prática não passa de assassinato e, às vezes, assassinato em massa” 60 é “uma mísera receita para construir um mundo melhor”. 61 Além disso, a suposta diversidade no fato de ser comunista, a profunda mutação antropológica que a assimi- lação da consciência revolucionária exige e que prefigura os traços da humanidade futura são não só o sinal da “superficiali- dade da antecipação do futuro comunista”, mas também o obs- táculo principal para o sucesso da revolução. A ciência de Marx – observa Rancière – tem exatamente o mesmo problema da utopia de Cabet: como construir um novo 58 A. Schaff, Il marxismo e la persona umana, Milão, Feltrinelli, 1973, p. 178. 59 J. Dunn, La teoria politica di fronte al futuro, Milão, Feltrinelli, 1983, p. 161-162. 60 Idem, p. 145. 61 Idem, p. 175. 134