Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 134

Maria Rosaria Manieri avesso a qualquer concessão (ainda que só verbal) à retórica dos bons sentimentos, esquiva-se de empregar o termo fraternidade: não parece, contudo, que para definir tal contexto tenha sido cunhado algum outro melhor”. 54 A realização da sociedade dos irmãos é o telos para o qual impele a dinâmica do desenvolvimento capitalista, o fim verda- deiro da “viagem de Fausto pelo mundo”. 55 O fim é antigo e foi formulado há longo tempo; o capitalismo leva-o à maturação; cabe ao movimento prático revolucionário apreendê-lo e realizá- -lo. Ele é a fraternidade universal, que pode ser obtida através da luta de classes e da revolução proletária, com a qual se romperá a trágica dialética de capital e trabalho. Por uma nova narrativa ética Perspicazes observadores da condição da classe operária em meados do século XIX, Marx e Engels consideravam que o único modo de superar os danos e as injustiças do capitalismo indus- trial fosse a revolução proletária. Os tons com que descrevem os processos de pobreza induzidos pelo capitalismo, que não eram só de miséria econômica, mas de empobrecimento, alienação e degradação humana, têm em si algo religioso, de sorte a requerer a mudança radical e global da sociedade; uma metanoia antro- pológica e social, que, através da superação das formas capita- listas de produção, dos modos de pensar e estilos de vida a elas conexos, possa levar ao nascimento do homem novo, humana- mente rico, e ao advento da sociedade dos irmãos. O fim do capitalismo por obra do proletariado era um escopo não só a ser perseguido, mas também historicamente 54 Ibidem. 55 E. Bloch, Dialettica e speranza, Milão, Garzanti, 2005, p. 84. 132