Íamos para a Figueira da Foz em Setembro , na furgoneta pão de forma da Volkswagen , com aquele ruído inconfundível do motor . Estava pintada de dois tons de azul com o símbolo da Grundig . Carregavam-se colchões , o fogão , as tralhas todas . A viagem era de noite , imensa , as pontes de Maiorca , os plátanos com um círculo branco à volta balizando as curvas apertadas . Lembro-me sobretudo da casa branca , ao lado do jardim municipal , onde ocupávamos o rés do chão com os tios Dulce e Manel . Só me lembro de um enorme rolho de alegria , os dias na praia , as histórias do Homem Enguia do tio Manel – o Homem Enguia vivia nas canalizações e fazia barulhos estranhos – os dias de nevoeiro em que ficávamos em casa a jogar ao castelo com uns feijões malhados , a ouvir a ronca , a pequena cafeteira de café com leite de alumínio com tampa que levávamos para a praia à tarde . E das noites , em que os Pais iam ao Casino – a Mãe toda perfumada e com um vestido preto com brilhos cor de rosa , as saídas ao Picadeiro , onde picávamos o cartão dos chocolates , a mulher do canto a vender tremoços , camarinhas e pevides , e toda uma multidão cheirosa , coquete , colorida e barulhenta , igual a todas as pequenas multidões de praia . Mas na altura eu não sabia disso , tudo me parecia criado para mim , tal como “ L ' étoile misterieuse ”, uns cogumelos vermelhos de onde surgia o Tintin na montra da Havaneza , e eu pensava : “ nunca terei dinheiro para comprar aquilo , nunca lerei , é só para ricos ”. Mas não sentia isto com raiva ou pena , não havia mal nenhum nestas ilhas inalcançáveis , só assim elas se convertiam em tesoiros . A rotina matinal de ir para praia e receber o ar que cheirava a sal e a lodo da doca . Era todos os dias um turbilhão . E depois os grãos amarelados da areia por entre os dedos , o vago cheiro a urina , o chegar ao toldo , e a espera que a torre do Relógio desse as 11 horas com a Marcha do Vapor pela Maria Clara . E a corrida para o mar . O mar frio , onde ficávamos enregeladas e roxas . O mar que me ensinou disciplina . O contacto com uma força que tinha de ser bem conhecida , bem respeitada – perceber as ondas , perceber o tempo , perceber a corrente . A euforia de fazer parte da água , de oscilar , de ser embalada no meio de toda aquela luz , e os gritos em volta , e o casario confuso ao lado do Grande Hotel , e o pontão que ia sendo construído aos poucos . Aos poucos , transformou a praia num monstro obeso e informe de areia , acatitou o mar ,
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