Todas a noites , quando a Mãe ia lá acima dar as boas – noites , nós despedíamo-nos em côro : “ Bonne nuit , maman , bon soir à demain !”. Dormíamos as três no mesmo quarto , eu num divã , as manas numa cama . A minha Mãe passou por períodos difíceis , sobretudo aquando do processo de falência do sr . Rogério , do qual os meus Pais – e tantos outros – foram vítimas . Nunca se falou disso em casa , só muito mais tarde vim a saber alguns pormenores , mas a angústia de tudo aquilo e a falta de dinheiro para governar uma casa com 3 crianças causavamlhe uma ansiedade que se traduzia em longas horas de ralhos . A nenhuma de nós esquece a frase mil vezes repetida : “ Que mal diz eu a Deus para ter uma filhas assim !” – a propósito de qualquer tolice nossa . Ficávamos horas afogadas em culpa , a ouvir toda aquela diatribe que se ia auto-alimentando em espiral , cavalgando , discorrendo sobre anteriores disparates , encontrando novos argumentos para nos condenar , e eu , no meio do terror que me punha o coração do tamanho de um grão de milho , só podia admirar-lhe a capacidade prodigiosa de nunca se calar durante horas , ralhando e gritando sem parar , enunciando argumentos que me pareciam lógicos , terríveis e tão bem concatenados … Não admira que eu sofresse de migraine : a “ dor no olho .” Começava com a característica aura , fosfenos , uma salivação abundantíssima que parecia uma fonte , e a finalmente a dor pulsátil , de um só lado do crânio , a estalar , que precisava do escuro total para ficar menos dolorosa . Desapareceu na adolescência , quando me tornei menos culpabilizável . Mas lembro-me muito bem de estar a olhar para a nogueira do lado da cozinha – que já não existe – e prometer a mim própria que nunca seria assim , que nunca me deixaria levar por aquele tipo de descontrole , com cólera , gritos e abuso verbal . Como é vulgar nestas coisas , levei a coisa longe de mais . Mas não sentia , nem sinto , rancor por aqueles episódios . A quantidade de amor que ela tinha por nós equilibrou a balança .
As manas . As manas eram as duas mais velhas . Um bloco indivisível a que eu não pertencia mas que fazia parte de mim . Como podem estas clivagens ter assim força … mas a genica e a capacidade de mando da Anicas casavam-se perfeitamente com a indecisão e a angústia da Clarita . Eu não fazia ali nada , estava sozinha , tinha o quintal , a casa dos caquinhos , a Aurorita Batata que brincava comigo às vezes . Mas quem era de facto o meu suporte não era a Mãe , era o quintal . Sempre o quintal , a água , o ar , a terra . Mas brincávamos imenso as três – lembro-me