As pulhas . Na altura do Carnaval , grupos de homens saíam de noite para os pinhais e para os montes e gritavam os podres da terra ; tudo o que era vergonhoso saía a lume , as carecas postas a nu , as mulheres que enganavam os maridos , os marcos deslocados do sítio , os namoros secretos . Na noite , ouviam-se aqueles gritos vindos de longe , pareciam vozes de roberto de feiras , mal se percebiam , mas eram fantasmagóricos e cruéis . Os homens usavam uns funis de lata como megafones , que amplificavam toda aquela matéria , aqueles segredos transidos pela pequenez . Depois , pum , puxavam de um velho bacamarte e davam um tiro , que ecoava pelos outeiros . No dia seguinte as pulhas estavam transformadas em escândalos , em ondas que se disseminavam nos lavadouros do Lagar e do Rio de Cima , na fonte , na loja , nas tabernas : todos os sítios do mundo onde aquilo tinha importância . Domingo de Entrudo . Estávamos na casa de jantar do Avô , tínhamos talvez comido galinha assada com salsa , arroz e grelos ( lembro-me muito bem dos grelos , da cor , da textura ). Fui à janela porque havia música , ou gaiteiros . E os mascarados . Ali em cima , eu estava em segurança . Mas quando eles nos perseguiam na rua , com a cara escondida com lençóis e as vozes em falsete , era horrível . Lembro-me de nos vestirmos , claro . Nessa altura íamos à arca , ou gaveta , dos fatos de Carnaval , e tudo aquil cheirava a pó-de-arroz velho . Pintávamos os lábios . A Anicas ia de de russa , com a coifa com pérolas e contas vermelhas e avental vermelho e preto . Todos os trajes tinham avental , isso era certo . A Clarita como holandesa , com a sua touca branca , ou de espanhola , um fato amarelo com bolas pretas de folhos , os fichus de renda … quando me vesti de jardineira , a mãe fez- me um fato de chita com ramagens azuis e rosinhas , e pus uma camélia no cabelo … havia um fato de minhota , mas era pequenino – eu adorava a algibeira bordada . Soube depois que tinha sido da prima Maria Manuela quando era pequenita – e ela tinha nascido em 1910 .
Os bailes de Carnaval e de Ano Novo . No cinema . Nos bombeiros . Havia o bufete e o cup , e uma sebe de senhoras todas bem postas , hirtas nas cadeiras de pau , muitas com bigode , sentadas à volta da sala . Uma barreira impenetrável até que “ a menina dança ?” abria um espaço . Ouvia muitas vezes o Volare , oh , oh , e o Only You , que me abria uma ânsia curiosa no peito . Os pares agarravam-se e os olhos das damas fuzilavam . E eu não fazia a mínina ideia do que era o on-li-iú .
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