Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 88

88 impede o olhar da cidade . Mas na altura , ainda havia a praia das crianças junto ao forte de Santa Catarina . E havia as mulheres que iam das aldeias aos fins de semana e tomavam banho de combinação – ficavam molhadas como galinhas magras , com os saiotes a pingar , e achávamos que os pobres eram muito parolos , coitados . De vez em quando , aparecia o Catitinha . O Catitinha era um velhinho com o cabelo branco , sempre a sorrir - e todo ele era um sorriso que vinha do coração e lhe fazia desaparecer os olhos . Não sei o nome dele , nem de onde vinha , nem porque aparecia na praia rodeado pela miudagem que o adorava , um flautista de Hamelin que era um simples , uma alma branca , um fou du village em quem todos confiavam . O seu aparecimento fazia surgir bandos de garotos que iam escapando dos toldos , escureciam a areia à volta dele , e lá ia o Catitinha pela areia , paralelo à marginal , a sorrir , aparentemente sem fazer nada , bastava-lhe estar , caminhar , acariciar com meiguice as crinças que o reconheciam como igual . Mais tarde , tive um namorado da Tuna cuja família , em Avanca , acolheu o Catitinha no fim da vida . O farol de Santa Catarina , junto à “ Praia das Crianças ”, quase desapareceu com as obras do porto . É um farolzinho pequenino , comovedor , metido numa pequena fortaleza . Sem “ th ” no Catarina , nem sequer com luz .

Lá estava instalada a “ ronca ”, que mugia quando havia nevoeiro . Por isso a palavra farol ficou-me sempre mais sonora do que luminosa . E excitante e melancólica ao mesmo tempo . A torre do Relógio , vertiginosa . Os bazares ao pé do picadeiro cheios de brinquedos . A biblioteca que tinha o formato de livro no parque junto à casa . Os piqueniques no cabo Mondego , onde a Anicas escorregou de uma rocha e partiu um dente . A visita à Sra da Encarnação , em Buarcos , onde os exvotos de cera me pareceram um pesadelo ; estava um céu cinzento e eu senti-me tão angustiada . A saia da Nelita , que tinha os naipes de cartas aplicados numa imensa saia rodada . Gelados de copinho , uma vez por semana . Bolacha americana , dia sim , dia não . Bolos – não sei se havia frequência , mas vejo as mulheres de pernas morenas , todas vestidas de branco , com um baú de lata à cabeça no meio do areal . Quando abriam as duas abas do baú , era uma pancada : um cheiro de coco e canela e baunilha , um cheiro amarelo torrado como a tarde . E eu todas as manhãs abria poços na areia molhado , e ficava a ver a areia escoar-se-me por entre os dedos . E havia o jogo do prego . E havia as outras crianças , todas horizontais , todas próximas , sem estranheza , tudo igual . Bastava o primeiro nome para ficarmos amigos , para brincarmos . Os antigénios e anticorpos , a desconfiança , a arrogância hierárquica já lá