Lá estava instalada a “ ronca ”, que mugia quando havia nevoeiro . Por isso a palavra farol ficou-me sempre mais sonora do que luminosa . E excitante e melancólica ao mesmo tempo . A torre do Relógio , vertiginosa . Os bazares ao pé do picadeiro cheios de brinquedos . A biblioteca que tinha o formato de livro no parque junto à casa . Os piqueniques no cabo Mondego , onde a Anicas escorregou de uma rocha e partiu um dente . A visita à Sra da Encarnação , em Buarcos , onde os exvotos de cera me pareceram um pesadelo ; estava um céu cinzento e eu senti-me tão angustiada . A saia da Nelita , que tinha os naipes de cartas aplicados numa imensa saia rodada . Gelados de copinho , uma vez por semana . Bolacha americana , dia sim , dia não . Bolos – não sei se havia frequência , mas vejo as mulheres de pernas morenas , todas vestidas de branco , com um baú de lata à cabeça no meio do areal . Quando abriam as duas abas do baú , era uma pancada : um cheiro de coco e canela e baunilha , um cheiro amarelo torrado como a tarde . E eu todas as manhãs abria poços na areia molhado , e ficava a ver a areia escoar-se-me por entre os dedos . E havia o jogo do prego . E havia as outras crianças , todas horizontais , todas próximas , sem estranheza , tudo igual . Bastava o primeiro nome para ficarmos amigos , para brincarmos . Os antigénios e anticorpos , a desconfiança , a arrogância hierárquica já lá