Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 82

82 raiadas de branco , de todos os tons e com um cheiro pungente . Gostava de ver as gotas de água a rolar como mercúrio nas folhas planas e redondas que pareciam chapéus de chuva , diferentes de todas as outras . As roseiras perto da figueira cá em baixo , que dão umas rosas velhas , cor de carne , delicadíssimas – apanhei algumas para o meu Pai quando morreu . Aí perto , as viuvinhas , flores que me pareciam tão estranhas , tão exóticas , e resistiam todos os anos , roxas e brancas , fora de qualquer canteiro . Havia também a peonia , que tinha mais de cem anos segundo a Avó Irene e continua a dar flores cor-de-rosa que são delicadas , orientais e agora escangalhadas pela velhice . A cameleira que havia ao lado já morreu – dava flores vermelhas que eram o símbolo do carnaval . Gostaria de ter perguntado mais coisas à Avó Irene , pormenores insignificantes que ela sabia tão bem , a cor dos sapatos do casamento , como é que tinha aprendido a gostar de flores , o que pensava de cada um dos seis irmãos , como é que se tinha apaixonado pelo Avô Joaquim , o que sentira quando ele estava em França durante a primeira Guerra . Estas coisas só se podem perguntar aos vivos , mas não faz sentido perguntá-las na altura porque não somos jornalistas da própria família , nem inquisidores obsessivos . Só quando não há remédio é que as perguntamos ao ar .

Quando eu tinha 10 anos , a família mudou-se para Coimbra . Pouco depois , adoeci com zona - ou cobrão , herpes zoster , ceinture de feu , shingles ... uma doença causada por um vírus com apetência especial para as bainhas nervosas . Tive zona aos 10 anos , o que é invulgar , porque ela é mais frequente nos idosos . O médico , um sensato João-Semana , perguntou , como nos folhetins do séc . XIX : “ Esta criança teve algum desgosto recente ?” - e ainda nem se sonhava de que maneira o stress da mudança vulnerabiliza o sistema imunitário . Sim , eu tinha sido transplantada abruptamente da Pampilhosa para Coimbra , 20 km e um salto mortal , e todo o meu universo ruíu . E lá veio a zona , um dragão de fogo a aferrar-se à minha cintura .
Como era o Natal ? Descer as escadas no dia 25 logo de manhã , doidas de entusiasmo , e ir à cozinha , onde tínhamos posto o sapatinho . Três sapatos de criança alinhados na banca do fogão a gás . Lembrome de uma máquina de costura em plástico , cor de rosa e verde , que me fez perder a cabeça . E quando foi a vez do relógio Cauny com correia entrançada azul , fiquei sem poder falar . O presépio estava na sala , em cima do carrinho de chá , com as figuras do costume entre o musgo . Não tínhamos pratinhas a fingir de rios , como na escola e no presépio da igreja , e isso desiludia-me um pouco . Também não tínhamos árvore de Natal como na casa da Dulce Maria , enfiada num vaso