Quando eu tinha 10 anos , a família mudou-se para Coimbra . Pouco depois , adoeci com zona - ou cobrão , herpes zoster , ceinture de feu , shingles ... uma doença causada por um vírus com apetência especial para as bainhas nervosas . Tive zona aos 10 anos , o que é invulgar , porque ela é mais frequente nos idosos . O médico , um sensato João-Semana , perguntou , como nos folhetins do séc . XIX : “ Esta criança teve algum desgosto recente ?” - e ainda nem se sonhava de que maneira o stress da mudança vulnerabiliza o sistema imunitário . Sim , eu tinha sido transplantada abruptamente da Pampilhosa para Coimbra , 20 km e um salto mortal , e todo o meu universo ruíu . E lá veio a zona , um dragão de fogo a aferrar-se à minha cintura .
Como era o Natal ? Descer as escadas no dia 25 logo de manhã , doidas de entusiasmo , e ir à cozinha , onde tínhamos posto o sapatinho . Três sapatos de criança alinhados na banca do fogão a gás . Lembrome de uma máquina de costura em plástico , cor de rosa e verde , que me fez perder a cabeça . E quando foi a vez do relógio Cauny com correia entrançada azul , fiquei sem poder falar . O presépio estava na sala , em cima do carrinho de chá , com as figuras do costume entre o musgo . Não tínhamos pratinhas a fingir de rios , como na escola e no presépio da igreja , e isso desiludia-me um pouco . Também não tínhamos árvore de Natal como na casa da Dulce Maria , enfiada num vaso