Para tirar todas as ervas , o Ti Adelino Fura andava sempre com um sachinho , e o quintal tinha um ar cuidado dos espaços onde se trabalha todos os dias – os carreiros perfeitamente delineados , sem silvas e sem ortigas . Por todo o lado havia barro e corria água .
Por vezes o barro tinha cores surprendentes , do roxo violeta ao amarelo pálido , do branco puro ao cinza azulado . Era assim , algo para olhar e integrar no imenso rol do mundo à luz da manhã . Depois havia o espaço da Eira , onde a Madrinha tinha o seu jardim depois que o Avô morreu . Tinha begónias e tuberosas à entrada , grandes trevos de quatro folhas , e depois canteiros e vasos com túlipas – e ninguém mais tinha túlipas , nem gladíolos . Eram as suas flores preferidas , que punha nas jarras durante a Páscoa . Túlipas lisas , frisadas , despenteadas , tulipas papagaio , bolbos que era preciso tirar da terra e guardar na casa da eira em cartuchos de papel durante o verão . Semeava também ervilhas-de-cheiro que cresciam em grandes montes fofos com um perfume inimaginável . Havia dois lilases , a silindra , as moitas de aspireia , o canteiro de verbenas , os goivos roxos ao pé da cozinha , o jarro da Córsega com a sua vela roxa enfunada e malcheirosa . O limonete . O alecrim , que crescia encostado a uma esquina do muro . As canas-da-índia que me pareciam galos e davam uma sementes redondas de chumbo azul escuro . As oliveiras , que tinham cada uma o seu lugar sagrado e que me custou imenso ver desaparecer . No Buxo , crescia a madressilva , ou chuchamel , cujos estames doces chupávamos . E um grande manto de chagas crescia sem controle , chagas de todas as cores , amarelas , vermelhas , laranjas ,
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