Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 80

80 no meio do tropel ligeiro que era o mundo sem nenhuma dor . Olhando agora para as letras das cantigas , vejo que eram só desgraças , contrariedades e perdas – só a tristeza tem pathos , claro . Só o drama implícito das coisas marca a alma e faz mover o tempo . Parte-se a cantarinha nas Pombinhas da Catrina , o amor anda em má fama na Amendoeira , o Enleio recusa enlear-se , a Rolinha caiu no laço , a Viuvinha é troçada , na Falua a Mãe perde os filhos . Nada disso era perturbante ou grave , mais uma vez a cegueira de viver me impedia de pensar no significado das palavras . Eram apenas o som da roda a girar : as mãos dadas é que eram o centro da manhã . Mas a cantiga que mais me doía , ou talvez a única , era a Machadinha , pela violenta tristeza da sua música , embora a letra seja relativamente neutra . O modo menor é pungente e asfixia e pesa com um cinza de chumbo sem esperança . Pelo menos sempre a senti assim . A música que eu ouvia era uma mistura de cantigas de roda , de cançonetas ouvidas na rádio ( O mar enrola na areia , Encosta a tua cabecinha ao meu ombro e chora …), das canções que a minha Mãe cantava , da música cantada na igreja ( que eu achava feia , exceto o Adeste Fidelis e o Bendito e Louvado seja ), e de peças sinfónicas escolhidas pelo meu Pai todos os domingos : a Sinfonia do Novo Mundo do Dvorak , a Casse Noisette do

Tchaikovski , a Arlesienne de Bizet , a Sinfonia Incompleta de Schubert , todo um século dezanove a complementar o sítio onde eu vivia , os livros que lia , a atmosfera da família .
Gostava de ouvir o meu Pai tocar piano e acordeon . Gostava de ouvir a Madrinha tocar piano . A minha Mãe também tocava , mas pouco me recordo . E depois havia o pick-up da Madrinha , uma pequena maleta castanha onde ouvíamos os discos de tangos de 45 rotações e aquela peça conhecida de Grieg ... ah , o Peer Gynt . Mas o meu som preferido – ainda hoje – é a água a correr . A bica do tanque dia e noite , o Cértima em camadas irregulares por cima do cascalho roxo e dourado , os ribeirinhos que se formavam no barro após a chuva .
O quintal das Poças é húmido e virado a norte . Uma encosta construída pelo Cértima e cheia de cascalho irregular . Alguém – quem ? – lhe desenhou terraços , murou-os , planeou escadas de pedra e lhe deu um ar de labirinto . As Poças estão na família há muitas gerações . O nome , claro , vem das múltiplas nascentes que lhe encharcam constantemente o solo mesmo nas piores secas . Tem locais com nomes próprios – o Telheiro , a Eira , o Buxo , onde há buxos talvez bicentenários com flores minúsculas que têm o perfume mais delicado que conheço e cujos frutos parecem