O Primo Álvaro tocava o velho orgão a pedais e isso agradava-me , embora o achasse ridículo com o cabelo penteado para trás e esticado com brilhantina . Agradava-me a sonoridade do latim , o agnus dei , o sursum corda , sons repetidos e sabidos de cor , a campainha para a consagração , e toda eu me contraía a pensar no momento sagrado , como se a minha apneia hirta ajudasse a transpor a barreira que o padre erguia com as mãos segurando a hóstia . Eu era pequena , e o olhar corria pelo teto de caixotões de madeira , os candeeiros onde uma luz de azeite brilhava , era sagrada e não se podia apagar , acho eu , tudo aquilo estava suspenso por crenças curiosas que não pareciam muito importantes mas faziam parte do mundo . Corria pelos azulejos da parede , pelas cores dos santos - e depois íamos almoçar a casa do Avô .
Não se ouvia rádio lá em casa , mas era um tempo de música e cantigas . A minha Mãe cantava imenso . Cantávamos sempre nos intervalos da escola . Ouço as toadas de roda no recreio , vejo-nos como se fosse uma experiência extra-corporal e eu sobrevoasse a roda de meninas a girar , com as suas batas cor-de-rosa , muitas de pés descalços , outras de tamancos . O recreio parecia infinito no tempo , até ser hora de regressar outra vez à sala e atravessar o corredor com o cheiro a pó , suor , giz ,
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