Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 79

cimeiro da pirâmide , é tão forte que se sobrepõe ao raciocínio . O medo da morte é o mais poderoso de todos , e é preciso o ancinho de deus para controlar o terror e a solidão . É preciso uma explicação para o universo , um adulto consolador , uma ordem que possamos controlar com orações bajuladoras e lascivas , sacrifícios e toda a casta de negócios ardilosos . E assim fazemos , curvamos o pescoço e cai sobre nós a voluptuosidade de sermos fracos e de termos um pai : os crentes aspiram à eterna felicidade da infância . Deus não é mãe porque as mulheres são seres de segunda escolha , é portanto o pater romano , o dono , que tem com cada um de nós uma relação com a força do sangue e dos genes . Quando percebi que eu era eu , capaz de pensar , capaz de decidir , deixei também para trás a religião onde nasci – como quem despe uma camisola no verão . Mas nessa altura íamos à missa todos os domingos e ficávamos junto ao altar de Santo António , ao pé da Madrinha . A Mãe não ia à missa , penso que nem sequer no Natal ou na Páscoa . Aquilo que imperava na igreja eram os cheiros : os cheiros da lã molhada quando estava a chover , que saía de muitos xailes e lenços pretos de lã . Os cheiros das flores nas jarras , do incenso , os cheiros a terra de uma massa de gente , os homens à frente junto ao altar-mor , as mulheres atrás .

O Primo Álvaro tocava o velho orgão a pedais e isso agradava-me , embora o achasse ridículo com o cabelo penteado para trás e esticado com brilhantina . Agradava-me a sonoridade do latim , o agnus dei , o sursum corda , sons repetidos e sabidos de cor , a campainha para a consagração , e toda eu me contraía a pensar no momento sagrado , como se a minha apneia hirta ajudasse a transpor a barreira que o padre erguia com as mãos segurando a hóstia . Eu era pequena , e o olhar corria pelo teto de caixotões de madeira , os candeeiros onde uma luz de azeite brilhava , era sagrada e não se podia apagar , acho eu , tudo aquilo estava suspenso por crenças curiosas que não pareciam muito importantes mas faziam parte do mundo . Corria pelos azulejos da parede , pelas cores dos santos - e depois íamos almoçar a casa do Avô .
Não se ouvia rádio lá em casa , mas era um tempo de música e cantigas . A minha Mãe cantava imenso . Cantávamos sempre nos intervalos da escola . Ouço as toadas de roda no recreio , vejo-nos como se fosse uma experiência extra-corporal e eu sobrevoasse a roda de meninas a girar , com as suas batas cor-de-rosa , muitas de pés descalços , outras de tamancos . O recreio parecia infinito no tempo , até ser hora de regressar outra vez à sala e atravessar o corredor com o cheiro a pó , suor , giz ,
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