Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 78

78 que desabrocha graças a um jardim esquecido . Aos poucos , monda as ervas ruins , descobre as flores que despontam , respira a plenos pulmões a charneca selvagem – e come batatas assadas num forno improvisado . Não era só os gestos que devolvem vida à terra , era sobretudo o segredo , a delimitação de um reino mágico onde não entram adultos . Que inveja .

Os livros de Nárnia , claro – só havia 3 editados -, e O Gnomo , de Tolkien ; na altura era o Gnomo , com desenhos patuscos e inconfundíveis e não se chamava Hobbitt . Cada vez que os lia era o mesmo deslumbramento . E ainda as Histórias de Dona Redonda e da sua Gente , da Virgínia de Castro e Almeida - o surrealismo no meio do pinhal , que coisa maravilhosa . Havia mostrengos , gente incompreensível , gritos , gente ridícula , insetos falantes , e os heróis nacionalistas eram a parte mais aborrecida da história . Achei que a alegria e a falta de regras na casa da D . Redonda eram fantásticas - essa parte de carnaval improvisado que nos é constantemente necessária . Depois , as viagens de Céu Aberto e Em Pleno Azul . Sou um castelo de cartas feito de todos estes livros lidos muitas vezes durante toda a minha vida , e de cada vez extraindo uma enorme felicidade mágica . Os Serões eram uma revista do início do séc . XX , e passámos muitas tardes de domingo a folheá-los .
Para além das histórias para crianças com ilustrações Arte Nova , havia as caricaturas políticas , a atualidade lisboeta , as “ senhoras em evidência ”, e o “ O Cão dos Baskerville ” em folhetins , com as ilustrações originais . O meu primeiro contacto com as estepes russas foi através de um conto ( de quem ?) que li em miúda , nos tais Serões , onde uma garota morta de sono vigia um bebé que não para de chorar . No meio da floresta , no meio de uma pobreza terrível , no meio de uma fadiga brutal , a garota acaba por estrangular o bebé que a impede de dormir . Foi assim a minha entrada na Rússia . Depois seguiu-se o general Dourakine da condessa de Ségur , a alusão à terrível guerra da Crimeia , as matrioskas turísticas , o Krutchev versus Kennedy , as fugas sensacionais para o Ocidente , a música sinfónica russa - As Danças do principe Igor da minha infância – a leitura repetida de Tolstoi e a minha relutância em ler Dostoievsky ( porquê ?), as histórias terríveis da imperatriz Catarina , os filmes de Eisenstein e de Tarkovsky , o horror de Estaline , a Guerra Fria , a mancha na testa de Mikhail Gorbachev , o estilhaçar da Cortina de Ferro e de um país gigantesco e de uma utopia gigantesca , a ascensão da máfia russa , a inveja do espólio do Hermitage , os sumptuosos bonés de pele . Um mosaico sem forma , a minha Rússia . É considerado decente e simpático ser crente . A necessidade de ter um deus reconfortante , um deus responsável , um deus que brilhe no lugar