Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 77

76 das personagens aliviava o peso de todo aquele século dezanove tornado cego pela ciência e apoiado em sangue e ordem .

Para além da incansável geografia , da crença na perfeição elétrica da civilização , apreciei a disciplina que saltava aos olhos como ossos no deserto : Júlio Verne adorava listas de objetos , nomes de exploradores , viagens absurdas que se sucediam como contas monótonas , descobertas de naturalistas que tinham nomes que evocavam cidades enevoadas , pardacentas e inquebrantáveis . Os meus favoritos : Viagem ao Centro da Terra , A Ilha Misteriosa , Matias Sandorff , Escola de Robinsons , O Raio Verde . Com a graphia do fim do século , claro , e as traduções literais em que o francês vinha à tona como vinho novo a ferver no meio do sarro .
O que me fascinou nos contos de Hans Christian Anderson ( para além do lado sombrio das coisas , que nunca nenhum autor infantil descreveu tão bem ), foi a sua capacidade de transformar os objectos banais e até feios em almas extraordinárias . Agulhas , tachos , armários , plantas comidas pelos caracóis , soldados de chumbo semiderretidos . Extraordinária , a maneira como este homem olhava . Quintais abandonados , casa semiarruinadas , plantas daninhas , nada voltou a ser o mesmo depois destes contos , que nunca me cansei de ler e reler . Para além destes , houve uma série de livros que li e reli antes dos dez anos : por exemplo , A Viagem Maravilhosa de Nils Holgerson , da Selma Lagerlof – fiquei sempre com a lembrança da cidade encantada para sempre sob o mar : perder tudo pode ser maravilhoso . E evocar a infância , como ela o faz da sua casa em Marbacka , pode também ser maravilhoso . Havia também A Arca , de Margot Benary-Isbert , a saga de uma família alemã oriental que procura reconstruir a vida depois da II Guerra . Cada um se encontra a si mesmo quando emigram da cidade devastada para um mundo rural . Cada um descobre como sobreviver através da força dos afectos , da presença amorável dos bichos e das plantas . Uma fantástica história de Robinsons . Os Gémeos Espartanos , das Cavernas , Esquimós , Chineses , de Lucy Fitch Perkins trouxeram-me uma enorme novidade : a perspectiva feminista da autora . Os gémeos são um rapaz e uma rapariga , e há sempre o esforço para alcançarem os mesmos direitos ; têm um laço fortíssimo , são engenhosos e querem entender o mundo . Completamente satisfatório . Frances Hodgson Burnett ! Melhor que o delicodoce O Pequeno Lorde , muito melhor , é O Jardim Misterioso , um livro magnífico de uma rapariguinha solitária , transposta para um solar do Yorkshire ,