Nunca nenhum livro nos foi censurado , e líamos tudo o que pudéssemos deitar a mão . Li os livros do Júlio Verne na oliveira que abria quatro braços a um metro acima do solo . Punha lá uma série de almofadas e sentia-me numa ilha . Os livros tinham sido comprados pelo Trisavô Landal , edição David Corazzi , com uma capa de balões , ruínas e barcos naufragados , uma cobra enroscada numa palmeira , um leão , mundos inverosímeis para serem tomados como tal , distantes e inexistentes , e no entanto era possível viajar para dentro do cheiro do papel velho , cheirar a gula exótica do passado , a obsessividade das enunciações . Passei a conhecer alguns nomes de velas de uma escuna e a saber que a expressão “ o vento refrescou ” é prenúncio de inúmeras e brutais tempestades . Havia muitas mortes cruéis pelo frio , por balas , por arma branca . Não era um mundo fácil ou suave , e nem mesmo o grosseiro bom humor de algumas
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