Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 76

A festa da padroeira , Santa Marinha , era feita sobretudo de cheiros : o cheiro a cabedal dos sapatos novos – o adorável ranger dos sapatos com correia por cima do peito do pé , com uma pequena fivela . O cheiro do rosmaninho e outras ervas aromáticas que cobriam as ruas , misturado com o cheiro do sol . O cheiro da chanfana pelo ar . O cheiro do fumo , da pólvora e do vinho no arraial durante o fogo de artifício . O cheiro do espera – maridos , doce de ovos na travessa a piscar o olho . O cheiro dos foguetes quando passavam os gaiteiros . Ontem revi a Viagem a Itália , do Rossellini , e as imagens finais da procissão são exatamente iguais à minha memória – exatamente iguais em todo este Mediterrâneo excitado de sol e de vinho . A turba era igual , os basbaques e curiosos , as bicicletas , o pálio , a filarmónica , os foguetes , a procissão . Não reparei se tinha colchas às janelas . Devia ter … as colchas eram uma parte fundamental da festa : antes da procissão , quando se começavam a juntar as pessoas no adro e no largo , a Madrinha ia às arcas , às gavetas e desencantava uma colcha para cada janela … e eram muitas . Desdobrar cada uma delas , deixar cair e prender depois com a janela de guilhotina . E lá ficavam elas a revestir as paredes , a adejar ao vento , símbolos por um dia , castelãs medievais em chita de Alcobaça enquanto a procissão ia e vinha . Havia-as de todas as cores e de todas as nobrezas : amarelas , rosas , verdes , azuis de ramagens . Algodão , damasco , seda , cetim , renda branca . Colchas e mais colchas , uma casa inteira coberta de grandes dentes coloridos , sinal de festa e de respeito , de coesão , de júbilo , de excesso , de conivência , da exterioridade do verão , de panos que gritam , estamos aqui , somos daqui , continuamos aqui . E depois era preciso tirá-las e dobrá-las novamente . Até para o ano .

Nunca nenhum livro nos foi censurado , e líamos tudo o que pudéssemos deitar a mão . Li os livros do Júlio Verne na oliveira que abria quatro braços a um metro acima do solo . Punha lá uma série de almofadas e sentia-me numa ilha . Os livros tinham sido comprados pelo Trisavô Landal , edição David Corazzi , com uma capa de balões , ruínas e barcos naufragados , uma cobra enroscada numa palmeira , um leão , mundos inverosímeis para serem tomados como tal , distantes e inexistentes , e no entanto era possível viajar para dentro do cheiro do papel velho , cheirar a gula exótica do passado , a obsessividade das enunciações . Passei a conhecer alguns nomes de velas de uma escuna e a saber que a expressão “ o vento refrescou ” é prenúncio de inúmeras e brutais tempestades . Havia muitas mortes cruéis pelo frio , por balas , por arma branca . Não era um mundo fácil ou suave , e nem mesmo o grosseiro bom humor de algumas
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