Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 75

74 pesar o açúcar . E o líquido ia ficando espesso , fervendo e borbulhando , de incolor passou a rosado e a alaranjado , a colher já fazia estrada no pirezinho , que bonita que era a a geleia metida em frascos e copos de pé alto a rebrilhar no balcão da cozinha . Lembro-me da minha Mãe a fazer os pastéis de massa tenra , nunca comi tão bons e nunca consegui fazer como ela , apesar de a ter visto muito vezes a cozinhá-los e de ter a receita que me deu . Foi a farinha que mudou ? A banha que ela usava ? Mas a minha Mãe não gostava de cozinhar nem tinha dinheiro . Ficava a ler até à ultima da hora e depois ia a correr fazer a comida : caldo de carne , arroz de bacalhau e batatas guizadas com bacalhau – nunca mais consegui comer nenhuma destas coisas . Mas o pior momento do ano era a Santa Marinha , quando faziam as caçoilas de chanfana , carne de cabra assada no forno com vinho . O cheiro era péssimo , o sabor bem pior . Mas as caçoilas de barro preto eram inesgotáveis , havia que comer aquela comida nauseante durante dias e dias . Para o chá das visitas punha-se a toalha bordada a ponto cruz com as chávenas do serviço , com uma peonia rosa acastanhada . Lá vinha o bolo manel ou o bolo de prata a saber a manteiga . Nos anos havia bolo de bolacha coberto com coco e com as velas espetadas . E , de vez em quando , o bolo russo com quarenta nozes e quarenta amêndoas – como os ladrões do Ali Babá .

Tínhamos direito a beber um dedal de vinho diluído em água , mas só bebíamos pelo copinho de prata , pequenino ; comíamos com os talheres de prata dos Bisavós porque não havia dinheiro para comprar talheres para o dia a dia . E andávamos com buracos nas solas dos sapatos . Nada disso era importante , desde que , ao ajoelhar na missa , escondêssemos os pés .
Os jogos da Majora que vi no outro dia num museu fizeram-me parar o coração , sobretudo as fichas redondas do loto , a rosa , o sino , o relógio … Aqueles desenhos tinham , têm o poder de evocar um mundo hiperestésico , alucinado de intensidade , alucinado de mistério , alucinado de possibilidades . Que estranha substância nos percorre o cérebro , durante a infância . Transforma tudo , coloca milhões de cores dentro das cores , abre histórias que só nós conhecemos , inventa um certo silêncio na colina , hipertrofia cada nervura , cada relevo , cada sombra . Tem o tremeluzir de um mundo fantástico , acobreado , desconhecido , que nos sufoca de tão poderoso , de tão tátil e de tão longínquo ao mesmo tempo . Não há droga tão potente como a infância . Também jogávamos o jogo da pesca , com peixes de papel e uma argola metálica dentro de uma cercadura quadrada de papelão com cenas de aquário , que tínhamos de pescar às cegas com uma cana com imã na ponta . E o dominó , com figuras de peixes , macacos , e coelhos .