Tínhamos direito a beber um dedal de vinho diluído em água , mas só bebíamos pelo copinho de prata , pequenino ; comíamos com os talheres de prata dos Bisavós porque não havia dinheiro para comprar talheres para o dia a dia . E andávamos com buracos nas solas dos sapatos . Nada disso era importante , desde que , ao ajoelhar na missa , escondêssemos os pés .
Os jogos da Majora que vi no outro dia num museu fizeram-me parar o coração , sobretudo as fichas redondas do loto , a rosa , o sino , o relógio … Aqueles desenhos tinham , têm o poder de evocar um mundo hiperestésico , alucinado de intensidade , alucinado de mistério , alucinado de possibilidades . Que estranha substância nos percorre o cérebro , durante a infância . Transforma tudo , coloca milhões de cores dentro das cores , abre histórias que só nós conhecemos , inventa um certo silêncio na colina , hipertrofia cada nervura , cada relevo , cada sombra . Tem o tremeluzir de um mundo fantástico , acobreado , desconhecido , que nos sufoca de tão poderoso , de tão tátil e de tão longínquo ao mesmo tempo . Não há droga tão potente como a infância . Também jogávamos o jogo da pesca , com peixes de papel e uma argola metálica dentro de uma cercadura quadrada de papelão com cenas de aquário , que tínhamos de pescar às cegas com uma cana com imã na ponta . E o dominó , com figuras de peixes , macacos , e coelhos .