A capela da Vera Cruz não passava de uns quantos muros grossíssimos que mal se viam entre o mato , a um quilómetro da aldeia . Ali , no meio dos campos do Alqueve , num barro vermelho gretado onde passeavam enormes formigas . Ali perto apareciam açucenas na Primavera , era estranho como aquele resto de jardim junto às ruínas ainda era capaz de ressuscitar : parecia uma história de fadas . Dizia-se que havia ali um tesouro enterrado , e várias covas abandonadas mostravam as tentativas para achá-lo . Na Vera Cruz fazia-se em tempos uma grande romaria . Aquela capela , perdida no meio das vinhas , era o ponto final de uma peregrinação que vinha de Aveiro . Durante as invasões franceses , os soldados de Napoleão abrigaram os cavalos na capela . Depois da profanação , deixou de servir para o culto e foi abandonada . Como todas as ruínas , continua a fabricar o seu mistério . Em frente , a vinha do Alqueve , onde as videiras desapareceram com os anos , foi completamente invadida pelos espilriteiros . Aqui e ali , de raro em raro , vides selvagens apenas com uma ou duas ramadas .
A Cila cozia a broa . Punha água a ferver num monte de farinha de milho dentro da masseira e amassava com força , amassava até que as mãos e os braços deixavam de se ver , e ela dobrada , vermelha , esgadelhada , a arfar , enrolando aquilo como ondas e socos e dobras , a farinha a resistir de encontro às paredes de madeira , a ficar em bola , mais água a ferver , e novamente uma fúria de mãos e braços , viragens e torcedelas , amassa que amassa , costas curvadas , respiração ofegante , até que a bola ficava redonda , pastosa e macia . A Cila gravava uma cruz , um traço vertical primeiro ( Deus te ponha a virtude ) e depois um horizontal ( que eu por mim fiz o que pude ) e cobria-a com um cobertor branco , para levedar . Depois era altura de tender as broas , enfarinhá-las e pô-las na pá de madeira até ao fim do forno quente . Fazia sempre uma broinha oval para mim , que eu comia ainda quente . Em Setembro , fazia-se a marmelada . Descascar marmelos é um trabalho duro , a polpa é rija , começa logo a ficar castanha , mas por entre a conversa e o ritmo das facas de ferro os marmelos estavam descascados e cortados em quartos dentro dos tachos e começavam a largar uma aguadilha . Depois de cozidos e passados por uma peneira , juntava-se o açúcar em ponto ao puré . A marmelada fervia e refervia , colando-se às paredes do tacho , quase da mesma cor que ele . Preparavam-se já as tijelas e as rodelas de papel vegetal molhadas em aguardente . Depois fazia-se a geleia – as cascas e as pevides a cozer , a largar o visco . Coar aquilo , medir a água ,
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