Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 73

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Em miúda , antes de andar sequer na escola , pedia sempre dois pães para o lanche . “ Hás de casar com um padeiro ”, dizia a minha mãe . Não casei , e esse foi um dos meus muitos erros . Mas eu precisava dos dois pães por causa do Compadre . O Compadre era um gato , o meu amigo tranquilo com riscas amarelas . Lembro-me de estar sentada debaixo da ameixoeira Rainha Cláudia à hora do lanche com dois papo-secos na mão , e lhe dar um bocado a ele , uma dentada para mim . Como se pode falar de um gato que muito amámos ? De todos os gatos a quem admirei a beleza , o cheiro , o veludo dos corpos ? Mas o que me lembro do Compadre era o seu silêncio , a sua capacidade de estar comigo , como se eu pudesse partilhar a terra e a erva com a mesma intensidade que ele . Não ia para o meu colo , não era necessário , apenas estávamos lado a lado , com uma felicidade que vinha do sol .
A minha irmã Clarita era uma criança bonita , de olhar doce , com umas tranças pretas e luzidias . Um dia , no andar de cima , puxei-lhe as tranças com força – teria 4 anos ? A Clarita começou a chorar , e a Cila , a nossa criada e justiceira da pequena tribo , subiu as escadas a correr e puxou-me o cabelo com força . “ A menina gosta que lhe façam isto ?”, e eu fiquei a pensar como era eficaz esta política . Não voltei a puxar as tranças à Clarita . Uma coisa tão simples , a justiça das crianças .
A única vez que a professora , D . Bernardete de Lurdes Neves Nogueira , me bateu , foi na segunda classe . A D . Bernardete era uma mulher lindíssima , de olhos enormes , verdes , fogosos , com um timbre de voz e um som de riso inimitável . Era severa mas tranquila , e nada fugia à sua autoridade ou à sua eficácia . Mandou-me copiar o desenho do livro , uma jarra de flores , cujo texto era um hino à alegria de haver flores em casa , e de como cabia às meninas cuidar das jarras . O desenho era simples e colorido , e não faço ideia porque me recusei a fazê-lo . A D . Bernadete deu-me uma reguada com a régua de madeira exótica que estava em cima da secretária .
A Pampilhosa está agora povoada de fantasmas . Pior do que fantasmas , de ausências que me fazem sentir indesejada e sem abrigo . Nada daquilo sou eu , não há ninguém que me acolha , que me seja familiar , me ame ou me deslumbre . Não há ninguém que eu respeite ou deseje . Tudo se esmigalhou , se diluiu , se derramou pelos anos fora , e só resta uma mulher vazia a olhar para uma terra vazia . O nada é um mau negócio . Continuo no entanto presa por um cordão umbilical , uma corda grosseira e informe que resiste a tudo . Não quero lembrar-me , mas anseio pela alegria da memória porque ainda não consigo