Relendo os livros da segunda e terceira classe , só algumas gravuras me afetam e acordam sensações que nada têm a ver com o conteúdo dos textos . São chicotadas no vidro , lugares impossíveis , espinhos de deslumbramento . Algumas daquelas ilustrações pregam-me a um carrocel que não é deste mundo . Naquelas páginas fala-se de uma vida idílica , tediosa e absurda de mães atarefadas e pais lavradores que nada tinha de real . Toda a gente é honrada , obediente , incansável e limpa , pequenos robertos de feira inventados pelo Estado Novo . Varrem a casa , vão à tropa , tiritam de frio , rezam , lavram , obedecem sempre de sorriso nos lábios . Todos estão contentes , os animais não cheiram mal , os campos são fecundos e inesgotáveis e há cortininhas nas janelas . Nunca me reconheci naquelas redações convictas , tudo aquilo era uma gente inventada , sem sal nem alma . Por isso sempre pensei que era mais um buraco negro para eu ignorar , e daí ter ficado para sempre vesga na leitura do mundo , e esquizofrénica mansa .
Vivíamos na zona alta , mais antiga e rural . A Estação , na parte mais baixa da aldeia , era outro universo . Uma zona de influência larga , com gente a cruzar as linhas esquivando-se aos vagões , apitos das locomotivas , operários com manchas de óleo e fuligem . E depois o círculo alargava-se , e havia a passerelle , o restaurante , o Chalet Suíço , as lojas , o mercado , o largo do Preto . Os azulejos da Estação eram de um verde meigo de folha , um verde-veludo que brilhava no labirinto das linhas . Por entre a correria dos passageiros , o fumo dos comboios a vapor , os ruídos das bielas , o metal luzidio das locomotivas , lá estavam aqueles azulejos verdes que nos viam ao longe , que pareciam e talvez fossem folhas de hera indestrutíveis a proteger a gare . Todos os comboios ficam bem num filme ou numa fotografia , e todos os comboios são assustadores na vida real . Não sei que beleza intrínseca e atávica têm os comboios , que apetência para a câmara , que bizarra harmonia de formas os torna perfeitos para se converterem em imagem . Mas o pulsar metálico ameaça de morte , mesmo que os comboios a vapor tenham desaparecido , com as suas chaminés , as suas bocarras , as suas rodas espasmódicas , os seus tinidos e fragores explosivos , e os comboios de hoje sejam cobras fusiformes e assépticas que se somem de repente . Eu tinha um medo tremendo dos comboios a carvão , do preto e do vermelho , sinal evidente de perigo . Não havia Marilyns glamorosas a dar um salto para o lado com as baforadas de vapor , apenas
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