O salão da casa do Avô Albano era uma grande sala mais ou menos quadrada , com um teto de tábuas onde ainda se viam os entalhes da enxó e duas janelas em frente à porta . Cortinas e reposteiros , um piano , um espelho , a mesa redonda ao centro coberta de bibelôs , estantes , fotografias , um jogo de sofás , um pick-up que parecia uma malinha castanha com discos de 45 rotações . Lembro-me dos bailes que ali se faziam . As raparigas com cinturas estreitas e saias rodadas , os rapazes de cabelo bem penteado a dançar um rock animado . O disco que girava uma e outra vez . A Maria Otília dançava com o namorado , era elegante e ágil , e fez-me uma saia para um boneca com um elástico na cintura e imensa roda . Era uma boneca pequena chamada Olga , e não faço a menor ideia do que lhe aconteceu . Mas a saia ainda existe , prova provada dos tempos do rock and roll . Toda aquela casa tinha um cheiro especial – roupa passada com um ferro a carvão , azeite , sabão azul , bacalhau cozido , cal . Um labirinto ilógico e tortuoso desde o rés-do-chão ao sótão , feito de velhas casas encostadas umas às outras que se foram aglutinando . Paredes grossíssimas e traves tortas onde se vê ainda o contorno dos troncos que não se deram ao trabalho de esquadriar . Na casa da ferramenta , o banco de carpinteiro do Avô Albano , onde ele serrava , limava , torneava . Fez estantes , molduras , caixas , tudo com minúcia e graça , coisas que ainda falam dele e das suas mãos . A despensa do azeite , cheia de talhas de lata e arcões , a sala de jantar , com a mobília comprada para o casamento deles em 1915 , o relógio de parede que dava as horas , a sopa de bacalhau com ovo escalfado , o gato amarelo que eu cavalgava