Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 66

66 foi C . S . Lewis . Os seus livros de Nárnia escancararam-me o tempo , e a sua descrição de um reino permanentemente gelado que acorda de repente para a Primavera é dos mais belos trechos literários que conheço . Não concordam ? Experimentem ter 8 anos e falarem-vos de ribeiros e de bosques totalmente cobertos de campainhas azuis . Nárnia foi determinante para mim , com a ajuda das ilustrações da Pauline Baynes . Há qualquer coisa de profundamente poderoso nessas ilustrações dos anos 50 , ou nas ilustrações à pena dos Famous Five ( o meu preferido era Os cinco e a ciganita ) ou do Júlio Verne . Nos livros da escola e na revista Fagulha havia uma ganga inútil e disparatada a que não dávamos atenção : tudo o que se relacionasse com Fátima , catecismo , meninos da Mocidade Portuguesa de braço esticado , bispos , papas e presidentes da nação . Pura e simplesmente não os víamos , passávamos adiante , eram buracos cegos para serem ignorados , tal como as Seleções do Reader ' s Digest em que só líamos aquilo que interessava , isto é , as anedotas do fim do artigo . O resto , ganga para deitar fora . A Fagulha foi uma belíssima revista infantil , cheia de bons escritores e ilustradores que nos agarravam a imaginação . Os véus violeta do lago dos tritões parecem palavras vazias , mas conseguiram mergulhar-me no espaço mágico das coisas que se transformam . A menina que bordava uma toalha chinesa e tudo ganhava vida e saltava cá para fora , em mesuras e agradecimentos . Os ladrões de Cristina , menina ladina . Os sempiternos orfãos encontrados e festejados , aí está a recompensa das boas ações . A menina que vivia numa árvore para fugir aos tios malvados . Silvana , a fadazinha da floresta que ensina a fazer doce de amora . A paisagem urbana de Lisboa com pequenas burguesas caridosas , em contraste com a gente ignorante do campo e o servilismo simpático dos pobres e dos pretinhos . Os meninos ricos depressa aprendiam que a boa educação passava por se dar bem com toda a gente , saber falar a toda a gente , como o faz um verdadeiro nobre , um verdadeiro rei . Mas as lições de moral eram mais ganga para deitar fora , a menos que fossem já tão sabidas que deslizavam pela nossa pele de crianças bem domesticadas . Crianças domesticadas : vivíamos no espaço doméstico , tínhamos de saber-lhe as regras na perfeição . Não se resmungava , não se exigiam coisas impossíveis , não se respondia mal aos Pais , aos professores . Mas a essa solidariedade , esse respeito pelos outros ( que proporcionam um conforto oleado que nos liberta para outras tarefas ), misturava-se um estrito código de negação sexual . O silêncio sexual era tão intenso que ainda hoje o ouço , ainda hoje muitas gerações estão