Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 65

O cheio do alfenheiro da sebe aperta-me o coração , esse músculo profundo que dói como se soubesse de tudo , a vegetar no escuro do peito onde há silêncio . Dói uma dor grave , porque a sebe de alfenheiro deita um perfume torcido que perfura o cérebro . Age como um monstro disfarçado de madrugada , jasmim e náusea , bom e mau ao mesmo tempo . Havia uma sebe destas na escola primária . Outra no liceu . Havia com certeza uma na faculdade , nos centros de saúde , no hospital psiquiátrico . Há um arbusto destes no quintal das Poças . Uma sebe em volta do hipermercado aqui ao pé . O perfume estridente e ruim do alfenheiro sempre me perseguiu , com o seu aviso de que tudo é possível um dia .

Coisas que vêm nos livros : “ A floresta prolongavase até ao mar ”; eis uma frase mágica , um tapete voador para ir para dentro de uma história de fadas . Um cenário que não existe é o mais belo luxo da infância . Há florestas que se prolongam até ao mar , territórios que ninguém conhece . Mas as florestas verdadeiramente intrincadas são o local da perda de si , da procura . Se se prolongam até ao mar é porque vão dar a uma saída , a uma abertura no tempo , a uma praia de sol , ao local de um naufrágio que já aconteceu . Todas as princesas têm de penar numa floresta .
Ficam desgrenhadas , sujas , esfomeadas e sedentas , vagueiam entre brenhas dia e noite . Vaguear talvez seja a chave . Vaguear numa terra sem salvação , onde o desespero é a única leitura do mundo . Vaguear para sobreviver , porque a floresta não acolhe ninguém : é o caos que nos expulsa . A salvação há de vir , mas isso não é o mais interessante . O que importa é a criação do extremo mistério , daquilo que não se pode , nunca , resolver : uma floresta que eventualmente se prolonga até ao mar e que ninguém sabe onde fica . À sexta feira à tarde vinha a carrinha Citroen , cinzenta , - da fundação Gulbenkian e parava debaixo do grande freixo do largo , ao pé do candeeiro . Sete livros para cada uma de nós , anotados na vertical e na horizontal dos cartões , como as cartas da tia Maria da Piedade . Por isso o sábado era o dia feliz que nunca mais deixou de ser . Li O Príncipe Prígio e O Príncipe Ricardo , do Andrew Lang , com 7 ou 8 anos . Lembro-me como fiquei contente por finalmente não me tratarem como uma parvinha . Andrew Lang sabia que não se devem tratar as crianças como lixo tranquilo e inodoro : há que desafiá-las . O cavaleiro foi à lua buscar um pedaço de estupidez para com ele esmagar o monstro . Não há nada mais pesado do que a estupidez . Fantástico ! O que eu aprendi com o malandro do inglês . Outro inglês – aliás irlandês – que me deu uma alegria tão funda que ainda hoje a tenho ,
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