Na igreja do séc . XVII , debaixo do olhar da Santa Marinha , o soldado romano ergue o sabre que há de degolar o pescoço branco da jovem já com a palma do martirio , mas os sangue nunca chega , a santa permanece de pé sob a lâmina cruel , o soldado está preso no tempo para sempre , e as cores esmaecem no painel do altar-mor sob o grande olho triangular de Deus . A primeira comunhão foi devota e fremente , debaixo de um vestido branco e de um véu de tule até à cintura . Fui a noiva que nunca fui , com uma saia em balão e uma alegria de roupas que nunca mais senti . Tão ou mais importante que o rito da igreja – que era significativo para mim – eram os sapatos bicudos a estrear , o vestido alugado com bordados e rendas até aos pés , o rio de meninos que encheu os corredores da igreja , aquela solenidade emprestada e a cheirar a flores que nos enchia como balões . Todos hirtos , todos passados a ferro . Tias e Tios . Santinhos com bordas de cartão rendado dento do missal . Almoço de festa . A Tia Lai meteu-me um tercinho de pérolas nas mãos , quando passei por ela durante a missa . Mas antes , já a Madrinha me tinha dado um terço de gordas contas de Viana , em prata , que fez um chocalhar gostoso quando o sopesei no covo da mão . Foi esse ruído que me fez entrar no reino dos cristãos a sério .
Quando chovia , o sumidoiro enchia-se de água e transformava-se num lago azul-claro debaixo dos carvalhos , com campos de margaça a toda a volta a virem morrer à água . Uma pintura . Depois , aos poucos , tudo secava , a água sumia-se pelas pedras abaixo e ficava só uma cova poeirenta e desigual onde o milho crescia . Dizia-se que as coisas que lá caíam eram arrastadas por uma corrente subterrânea e vinham dar a uma fonte em Ançã . Uma mulher deitou para lá um molho de lenha atado com uma fita vermelha . Um bando de crianças foi testar também a teoria e perdeu os barquinhos de carrasca que ficaram no meio da lagoa , não conseguiam ir ao fundo . Quando chovia mesmo muito , não era só um , eram vários sumidoiros que pareciam olhos azuis entre as oliveiras . E , ali ao perto , as grutas da Fujaca com estalagmites e estalactites , onde tinham achado um osso tão grande como a roda de um carro e talvez fosse o joelho de um dinossauro . O monte da Fujaca era bravio , todo coberto de mato . No inverno , um reino pingão de musgo , salsaparrilha e gilbardeiras , na Primavera um incêndio de tojo amarelo , pascoínhas e madressilva . Na Primavera , gostava de ir à procura das orquídeas que cresciam por ali , pareciam moscardos e abelhas irisadas com asas abertas . Gostava também das dedaleiras e das papoilas frisadas , tijelas de seda cor de rosa que cresciam sem que ninguém as plantasse .